Perturbações
E se vivêssemos o fim das artes como se a criação fosse hoje uma exclusiva prerrogativa das tecnologias? E que vivemos num mundo cheio de gadgets , de instrumentos e de “intelecto geral” -- para uma orla da humanidade até de “bem-estar” -- mas espiritualmente oco, destituído de magia, ignorante e esquecido de si mesmo, da profundidade ontológica que o envolve e cerca? Que as ciências aplicadas nunca atingiram um tal domínio sobre as teorias e as práticas humanas, mas as humanidades estão em crise, até em estertor. Que a nova classe xamânica já não é composta de poetas e de padres da igreja, mas de engenheiros e todo o tipo de gestores da contingência; que o cálculo das probabilidades substituiu o pungente canto do impossível. E as nossas artes mais rudimentares e milenares -- a literatura, o teatro e a pintura – não se alimentam mais do que da caricatura de si mesmas; de simulacros de originalidade e da celebração do kitsch ; que a novidade artística é sempre na verdade uma r...