Perturbações
E se vivêssemos o fim das artes como se a criação fosse hoje uma exclusiva prerrogativa das tecnologias? E que vivemos num mundo cheio de gadgets, de instrumentos e de “intelecto geral” -- para uma orla da humanidade até de “bem-estar” -- mas espiritualmente oco, destituído de magia, ignorante e esquecido de si mesmo, da profundidade ontológica que o envolve e cerca? Que as ciências aplicadas nunca atingiram um tal domínio sobre as teorias e as práticas humanas, mas as humanidades estão em crise, até em estertor. Que a nova classe xamânica já não é composta de poetas e de padres da igreja, mas de engenheiros e todo o tipo de gestores da contingência; que o cálculo das probabilidades substituiu o pungente canto do impossível. E as nossas artes mais rudimentares e milenares -- a literatura, o teatro e a pintura – não se alimentam mais do que da caricatura de si mesmas; de simulacros de originalidade e da celebração do kitsch; que a novidade artística é sempre na verdade uma reciclagem, uma modernização do clássico, um embuste; uma reabilitação do original, o triunfo do plágio que a todo o custo se faz passar por reinterpretação. Que a grande vocação artística da nossa época é a reabilitação e reapropriação do antigo; que vivemos um renascimento perpétuo; que o estilhaçamento dos paradigmas da arte, dos regimes estéticos, é não o efeito da democratização das e dos mesmos, mas a confissão da nossa impotência enquanto artistas. Que o estado da arte não é já o da embriaguez mas o da ressaca contínua. Chegámos ao fim da praia no que trata à centralidade da criação artística como instituição da humanidade, até da civilização, e agora não mais nos resta do que andar em círculos; celebrar o fim da arte ateando fogueiras com a lenha do cânone. E o mundo perdeu a sua profundidade hermenêutica, tutelada pela figura ancestral do filósofo, para ceder lugar à superficialidade economicista guiada pelos valores modulares da eficiência e da eficácia. Que é um mundo de conforto onde nunca nos sentimos tão desconfortáveis com a nossa condição finita. E enquanto as tecnologias se autonomizam em relação à ação humana individualmente considerada, o humano não consegue representar o vazio que o envolve e paulatinamente o esmaga, não tem uma arte à altura do seu poderio sobre o mundo. A alienação é total. A reificação da natureza feita à imagem do homem apenas o aliena de si mesmo e do mistério que lhe dá vida. E as artes são hoje impotentes para competir com este mundo capaz de se autodestruir por centenas de vezes. O humano da contemporaneidade é apenas um espectro da humanidade que já foi.

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