A emancipação do pensamento religioso

 




Emancipar-se era emancipar-se do pensamento religioso com a sua pletora de preconceitos. Nada havia esperar porque nada nos tinha sido prometido. Ascendemos (ou descendemos) à Terra sem termos pedido absolutamente nada e sem que tenhamos dado qualquer autorização. A vida aparece-nos tão só, é-nos concedida como uma obra da graça; toma conta da nossa personalidade e confunde-se no nosso corpo. Há vida porque nós temos vida: é um círculo perfeito. Do mesmo modo que nenhum “ser superior” nos traçara um qualquer plano ou desígnio misterioso. Estamos tão impregnados de misticismo religioso que acreditamos dogmaticamente que a nossa vida tem um sentido. Não tem. Pior ainda, não há nenhum sentido de justiça a que nos possa agarrar a priori, como se estivesse escrito nos astros. Nada podemos esperar porque nada nos foi prometido. Por outro lado, o que seria de nós enquanto humanos, isto é, sujeitos de arte e objetos estéticos, sem a capacidade de nos autoiludirmos e de iludirmos os outros, e, tantas vezes, em nome de uma Verdade que julgamos – ou que queremos -- derradeira, absoluta. Jonas não sabia dizer que essa espécie de descoberta, ou de lucidez, e que coincidia inteiramente com a sua libertação dos preceitos religiosos, essa canga secular, podia ser chamada de “caminho para a liberdade”. O certo é que principiou a perceber o “seu tempo” como a única medida possível para uma vivência (e convivência) radical, sem margens, e, num certo sentido, verdadeiramente eterna. Atrás e à frente de si, do seu ser que se misturava no ser de todas as coisas, não havia mais nada, absolutamente mais nada. Como cantava o poeta: tudo se joga cá em baixo.


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