A contestação da ordem como contestação da autoridade
Pouca coisa define melhor a autoridade
do que a dispensa de justificar a ordem. Toda a criança sabe que não vale a
pena contestar a ordem da mãe, que tem de obedecer simplesmente porque sim,
porque não quer forçar a mãe à necessidade de repetir a ordem. E o que acontece
na educação no seio familiar é extrapolado para todas as instituições onde há
relações de poder e hierarquia. Se o subordinado ousa, mesmo se em silêncio, contestar
a ordem, repudiar o seu sentido, a autoridade do subordinante é ferida. E talvez
a importância do cultivar do sentido crítico, nomeadamente no campo das
designadas Humanidades, e em particular da filosofia, resida precisamente nessa
capacidade de suspender a verticalidade da ordem, a perfeita adesão que ela
requer como símbolo da afirmação da autoridade. Ganhar distância face à ordem,
ousar interrogá-la, é ganhar distância face à autoridade, e, por extensão, à
naturalização da hierarquia. O que poderá ser mais ameaçador a um edifício
institucional assente na hierarquia do que os subordinados dos subordinados, a
base da pirâmide, se interrogarem sobre a ordem, contestar-lhe o sentido,
colocarem em andamento uma máquina centrífuga de dúvida, de questionamento e,
principalmente, de relativização da mesma relativizando por esse gesto o
artifício de um vínculo inalienável entre ordem e autoridade -- colocando assim em causa o caráter sacro da autoridade. Sendo que a fórmula
“porque o devo fazer?”, “porque devo obedecer?”, se inscrita em toda a sua
radicalidade tem a mesma “potência destituinte” da fórmula clássica de
Bartleby: “preferia não o fazer”. Conquanto que a segunda destitui, rarefaz, o
ato da ordem quando ela é proferida e a primeira visa contrariar a própria
formulação da ordem logo na sua raiz, quando no limite esta ainda nem foi
formulada.

E é também por isso, com Bakunin, que o socialismo não pode ser construído do topo para a base, mas da base para o topo.
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