A igreja e a reabilitação do universal
O burguesismo de quem troça das
palavras simples e vulgares (devidamente escolhidas a dedo e extraídas do contexto em que são proferidas) do Papa Francisco é-me tão repulsivo que quase me
leva a acreditar na função essencial da palavra cristã. Não fosse o marxista
entranhado em mim e também quase que acreditaria que a esperança da humanidade
- - isto é, dos pobres - - está depositada na fé católica. O preconceito e a
mistificação podem mobilizar o que de mais crítico há em mim; mas aquilo para o
qual não tenho mesmo paciência é para o pedantismo e para a soberba
intelectual. Que eu saiba a religião, tal como o comunismo, não foi inventada para
o gozo privado de alguns onanistas intelectuais. E afinal de que servirá o
segredo se ele só pode ser escutado e decifrado por uns poucos? Se nem todos,
isto é, os leigos, os pobres, os ignorantes... em suma, a ralé, o pode ouvir,
ou, ouvindo-o, está automaticamente habilitada para o compreender. Toda uma
vertigem histórica com séculos de mortandade, de guerras religiosas e de
convulsões no seio da igreja para retirar à hierarquia eclesiástica o monopólio
da interpretação das escrituras e ainda hoje se julga que nem todos são dignos
da sua palavra. A lição política (não apenas moral) que a igreja nos dá a
partir das suas jornadas da juventude é o poder inerente à reabilitação da
universalidade. Ainda que, como bem o saibamos, até os mais crentes, a
universalidade católica contenha terríveis exceções e na verdade não sirva para
albergar “todos, todos, todos”; que seja, também ela, um universal-particular
entre os universais-particulares das outras religiões. Para aquilo que a igreja
nos convoca a partir das suas palavras vulgares, plebeias, é para a
centralidade política da universalidade num mundo caraterizado pela atomização
social, pelo sectarismo e a hierarquização de todo o valor e correspondente
acesso.

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