A laicidade desafiada ou o mundo liberal em questão
O fulgor com que muitos crentes, praticantes ou não
praticantes, viveram estas jornadas mundiais da juventude diz tudo sobre a sua,
e talvez também nossa, necessidade de reconciliação com a vida e com o mundo e
não diz quase nada sobre a capacidade de transformarem esse estado de espírito,
coincidente com a temporalidade do espetáculo, num mundo e num viver consentâneo
com as necessidades espirituais que tão alegremente expressaram por estes dias.
O seu êxtase temporário acalentado pela presença do corpo do chefe da igreja, ethos que de alguma maneira os políticos
e a comunicação social se procuraram apropriar – procurando tornar quase
indistintas as fronteiras entre o Estado, a sociedade civil e a igreja --, é
como que a expressão de uma carência profunda a que a laicidade do Estado, para
lamento dos mais contundentes defensores da separação entre a religião e o
Estado, não consegue dar resposta; falta para a qual não há fármacos que o
liberalismo democrático e a indiferença em relação aos assuntos religiosos
possam fornecer. Por outro lado, que na verdade está implicado neste, esse
desejo irrefreável de mudar a vida e o mundo a partir do que há de mais
luminoso no seio da igreja – o qual obriga a colocar na sombra a face mais
obscura e perversa da mesma --, esses princípios morais basilares elevados a
pretensa lei ética universal (os mandamentos), não é digamos materialmente
sustentado naquilo que define as nossas sociedades. Sabemos bem como, primeiro,
finda a festa, apagada a luz dos últimos holofotes, a rotina profana retorna em
toda a intensidade e, claro, com toda a violência que lhe é intrínseca, enfim,
com tudo aquilo que é tantas vezes o justo oposto do que acabou de ser vivido e
prometido – o amor ao próximo, a solidariedade, a paz em casa e a paz no mundo,
o viver em harmonia com os outros e com a natureza, etc., etc. Neste sentido as
JMJ foram verdadeiramente uma festa, uma pausa ou suspensão daquele que é o
calendário civil, daquela que é a nossa verdadeira condição material enquanto
seres sociais. Mas, como bem o sabemos, não há festa que dure para uma vida
inteira… Segundo, a defesa firme e intransigente da laicidade que, no limite,
conduz à privatização da crença e/ou às mais excêntricas e delirantes exibições
de religiosidade sem devoção a qualquer igreja tradicional, acaba por ter o
efeito, paradoxal ou não, de retirar do espaço público estas manifestações
coletivas por um mundo que o Estado secular, republicano e laico não é capaz de
produzir. O meu ponto é que se a religião é alienação, tal como todas as formas
de religião civil, nem por isso deixa de ser desafiante ao mundo liberal tal
qual este se nos apresenta e que toda a alegria e esperança depositada na fé católica
só podem ser compreendidas no quadro de uma profunda necessidade de libertação
deste mesmo mundo – isto apesar de todas as suas virtudes.

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