A luta de classes e os limites ontológicos do marxismo: uma crítica
A conceção da história da luta de
classes é adequada à ontologia ocidental também precisamente pelo que ela
revela sobre o que carateriza esta ontologia. O marxismo opera ainda dentro
desta ontologia e isso denuncia os seus limites quanto à possibilidade de uma
derradeira transcendência da mesma a partir da filosofia marxista. A teleologia
ou filosofia da história marxista sustenta-se nessa produção da história humana
a partir das bases materiais que balizam a ontologia ocidental. O proletariado
é o produto do desenvolvimento das forças produtivas que conduziram à ascensão
revolucionária da burguesia e será a mesma dinâmica das contradições das
relações económicas que, por seu turno, conduzirão à revolução proletária até à
dissolução da sociedade de classes. Para o marxismo trata-se sempre desse
apoderar-se das dinâmicas que o capitalismo sempre prepara, por meio da
acumulação das suas contradições, mesmo que ao preço da sua implosão. A
burguesia é o seu próprio coveiro, tal como o foi o feudalismo. Mesmo o
proletariado será o seu próprio coveiro, na medida em que numa hipotética
sociedade de classes ele terá de se extinguir enquanto classe. Sendo que ou
deixa de haver proletário ou todos passam a proletários. O elemento perturbante
é que a ontologia ocidental que precipita a luta de classes e toda a tragédia
que a envolve não é recusada pelo marxismo, pelo contrário, o marxismo pensa e
atua sempre através dela. Para o comunismo marxista se realizar enquanto tal,
enquanto pensamento e enquanto praxis, ele precisa de se tomar como medida
universal do mundo, mas nem o mundo é exatamente “o Ocidente”, nem o seu
universal é “toda a humanidade”, pelo contrário, é uma parte desta, uma classe
particular: o proletariado. Por se inscrever e não superar a ontologia
ocidental, na sua expressão da metafísica da luta de classes, o marxismo acaba
sempre por replicar, ao limite da sua prometida extinção, o modelo de violência
do poder, que é sempre poder de uma parte, contra o resto da sociedade. E a
tensão e o conflito entre a autonomia de classe e a estatização apenas aclara a
profunda contradição em que o próprio marxismo se enreda. Ele pretende redimir
de uma vez por todas a violência incrustada à história do ocidente, mas apenas
o consegue fazer ao preço de a reproduzir uma e outra vez mais. O anjo do
progresso de Benjamin acaba por se confundir no rosto do proletariado que para
se reificar enquanto sujeito histórico precisa continuamente de acumular atrás
de si um cada vez mais amplo número de esqueletos, de inocentes.
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