A paixão pela desigualdade (Rancière vibes)
Seriamos capazes de viver sem
prestígio, sem comendas, sem títulos, sem prémios, sem honras nem glória, sem
elites, em suma, sem desigualdade? Qual a razão para amarmos tanto não a
diferença, a qualidade do que é diferente ainda que igual (como no famoso slogan),
essa multiplicidade aberta e horizontal, mas a desigualdade como expressão de
uma diferença positiva, de uma
relação vertical e fechada, isto é, hierarquizável, reflexo de uma relação
assimétrica de poder – mesmo se simbólico? Mesmo as forças políticas mais
igualitárias e coletivistas (e seria preciso distinguir ainda os dois conceitos
que não são necessariamente compatíveis) como as tradicionalmente conotadas com
a esquerda não conseguem passar sem o seu panteão de referências, os seus
heróis de militância e as suas vanguardas culturais, e, já agora, sem as suas
personalidades mediáticas de que dependem para a competição pela atenção do
potencial eleitorado. O fetiche pela desigualdade não desaparece quando a
personalidade a cultuar é de esquerda…
Já no século dezasseis perguntava-se
La Boétie pela razão aparentemente insana de desejarmos a servidão e de querermos
ser amados pelos príncipes, isto é,
pelos nossos senhores, por quem nos oprime e explora? Conseguiríamos viver em
igualdade, nós, que só conhecemos a sociedade da desigualdade? Desejaríamos
mesmo isso, habitar, em comum, nesse deserto árido da indiferença radical? Prescindiríamos
do fascínio pelo poder; da possibilidade de comandarmos os nossos semelhantes? E
porque queremos tanto que nos ame quem nós servimos? Será que é por via desse
perverso “amor” que podemos dignificar, de forma completamente distorcida e
patológica, a nossa condição de “seres menores”? Porque queremos afinal tanto
agradar a quem nos humilha e despreza? Para estes, os nossos senhores, serem
menos duros connosco? Para nos terem compaixão, para nos preferirem em relação
aos nossos restantes companheiros de servidão? Dependemos desse amor para a nossa
condição de servos ser menos pesada? Qual o motivo para tanto medo à liberdade
e à igualdade? Talvez o primeiro passo, individual e coletivo, para nos
libertarmos da sociedade da desigualdade seja justamente o de ativamente
recusarmos a amar quem nos é Outro, isto é, não simplesmente diferente mas
desigual.

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