A palavra do Papa ou a banalidade do Bem
O espírito moderno educado para o gosto e para a distinção social só pode escandalizar-se com a conversão da banalidade em consagração da verdade. Esta espécie de mistério a partir do qual qualquer vulgaridade dita se transforma em algo tão profundo que nos leva a rever a vida que até aqui compartilhámos com os nossos semelhantes; que nos leva a (re)descobrir aquilo que no fundo sempre soubemos mas que resolvemos nós sim banalizar, recusar-lhe qualquer sentido profundo, rebaixar a dignidade ética e política dessas palavras. O que o Papa diz não são palavras soltas ao vento, bem pelo contrário, elas ressoam uma verdade entretanto perdida, uma linguagem entretanto esquecida e que é preciso recuperar ante a queda e a perdição. As palavras banais do Papa só ganham relevância, até emergência ética, porque se inscrevem sempre sobre o horizonte de fundo da catástrofe que sempre ameaça a espécie humana. A palavra do Papa é verdadeiramente palavra de salvação. A função da instituição da igreja é menos profética, de nos conduzir ao reino dos céus, quanto soteriológica, de resgate do humano dessa decadência que segue ininterrupta.
Ao contrário do raciocínio dos céticos o escândalo não está na proliferação da banalidade; o escândalo para o espírito imbuído do fenómeno religioso está na perda dessas verdades básicas onde proliferam os significantes vazios. Mas se estes estão vazios, estes significantes, não é porque eles em si mesmos sejam vazios, é porque a humanidade, na sua decadência, na sua profanação ontológica, os esvaziou; em palavras provocatoriamente heideggerianas: a humanidade – particularmente a “civilização ocidental” -- esqueceu-se do Ser. Que já não sabe ouvir e agir em conformidade com a mais espontânea, mas nem por isso menos verdadeira e paradoxalmente profunda, das formas de verbalização do Bem. Sim, a um nível superficial próprio do espírito escarnecedor dos esclarecidos as palavras do Papa podem ser comparadas às vulgaridades proferidas por qualquer guru que enche as prateleiras dos livros de autoajuda, a diferença decisiva é que o “lugar de fala” do Papa é outro, que ele fala a partir da instância decisiva da memória coletiva de que ele é o sumo guardião, que é ele que ao repetir essas palavras -- ocas aos ouvidos dos céticos -- luta contra o esquecimento e reabilita, torna a pôr em cena, as verdades elementares que entretanto perdemos, ou, pelo menos, que deixaram para nós – por nossa própria responsabilidade e/ou perda de fé -- de ter qualquer significado.
A palavra do Papa tem assim o condão de resgatar a profundidade inscrita no banal, de fazer com que o discurso aparentemente mais superficial ganhe camadas de significação imprevistas à medida que vão sendo “digeridas” pelos que o escutam. Que a superfície das palavras vãs, das fórmulas sintáticas e semânticas mais elementares, pela via da interpretação -- e a interpretação abre sempre o campo à complexidade, à hermenêutica – ganhe dimensões semânticas até então imprevistas. O efeito destas palavras triviais é verdadeiramente encantatório, como se se inserissem num dispositivo propositadamente construído para a produção do êxtase. A verdade do Papa pretende ser expressa a partir do lugar de fala da Verdade e essa verdade não é incomunicável, bem pelo contrário, ela já está “no meio de nós”, nós é que a já não sabemos ouvir nos nossos corações e mentes.

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