A religião como fenómeno racional

 


Tendemos a compreender o fenómeno da religião sob a suspeita de uma espécie de penetração do irracional nas crenças básicas do humano. E o fenómeno religioso é de facto tão complexo e tem tantas camadas que é impossível pretendermos esgotá-lo numa única definição, abordagem epistemológica ou modelo explicativo. Acresce ainda que o binómio racional/irracional obscurece mais do que aclara no que trata à adesão dos crentes ao religioso. Não só porque tudo o que é compreensível é consequentemente racionalizável – não podemos explicar aquilo que é da dimensão do irracional, mesmo quando essa “irracionalidade” (que é sempre uma irracionalidade à luz de um certo modelo de racionalidade) determina os comportamentos do indivíduo ou de um dado coletivo --, como essa adesão ao religioso, enquanto aquilo que transcende o âmbito da compreensão e da ação humana, pode ser entendida como um ato perfeitamente racional. Neste sentido, podemos dizer que a religião surge como a resposta racional, até utilitária, à precaridade ontológica do humano. Sendo que mantendo-se a condição humana da finitude (como sempre se manterá) a religião persegui-lo-á como uma sombra. Nada pois mais racional do que esperar que um ser transcendente (ou simplesmente imensuravelmente mais poderoso) tutele e garanta boas colheitas, ou uma boa caça, ou uma boa pescaria, ou proteja a comunidade de doenças pandémicas, quando se está dependente de forças naturais que ultrapassam sobejamente o domínio do humano-social; forças e relações físicas que escapam ao controle do homem e todo o seu aparato técnico e tecnológico. E, à luz desta interpretação do racionalismo religioso, é natural, primeiro, que à medida que o humano vai dominando as forças naturais primitivas das quais depende para a sua subsistência, os seus deuses vão evoluindo para estádios cada vez mais abstratos e mais dissociados dos grandes objetos sensíveis primordiais (como o Sol, a chuva, a terra, o trovão…); e, segundo, o fenómeno religioso esmoreça à medida não só dessa substituição do mito pela ciência, do transcendente pelo imanente, no que trata à “explicação” da realidade física, do ritmo de desvelamento de como os fenómenos naturais realmente funcionam, quanto à medida que o materialismo científico ocupe o lugar antes também racionalmente povoado pelo sobrenatural.

O que não quer dizer que cheguemos a um estádio evolutivo que prescindamos do divino, desse grande Outro que governa o universo no seu todo e a nossa vida em particular, isto porque a condição humana está marcada pela finitude e pela “fratura ontológica”, o simples facto de não sermos Um. Seja do ponto de vista social, seja do ponto de vista individual, acreditar num ser que nos é superior e o acolhermos como sagrado, é algo que está perfeitamente de acordo com a Razão, com a racionalidade, e representa o reconhecimento radical da nossa fragilidade e precariedade existencial. Deus é como que o último sujeito, o último ser, a quem podemos apelar quando as respostas da ciência se mostram inerente e insuperavelmente inconclusivas. Nenhuma atitude mais racional do que procurar preencher o espaço vazio da incerteza radical com a projeção mitológica de uma entidade última (ou entidades) que garanta a nossa sobrevivência e que a realidade conservará a sua constância material quando não sabemos como ela funciona de facto, como ela é em si, quando ela é para nós um mistério de graça e dádiva.           

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