A tonalidade afetiva da nossa época

 


 

A tonalidade afetiva que define o nosso tempo é a que resulta do sentimento de catástrofe iminente – isto mesmo dando de barato a discussão sobre o quanto esta é de facto real (e ela é assustadoramente real, mais real ainda do que toda a construção de que o dispositivo mediático depende, o real é neste caso mais sensacional do que o artifício). Lembramo-nos daquelas cenas míticas do filme Exterminador que descreviam o estado de felicidade relativa das famílias num parque infantil -- os sorrisos, o baloiço para cá e para lá com uma criança a bordo, uma jovem mãe a empurrá-lo -- instantes antes das bombas nucleares arrasarem com tudo. Este sentimento de temor inexpugnável, do qual não nos consigamos libertar apesar de todos os nossos esforços, guarda algumas similaridades com os anos quentes da guerra fria, mas agora a ameaça não nos parece provir desse Outro com rosto humano que prontamente eliminaríamos se o pudéssemos fazer. Na verdade, a origem, a culpa do nosso temor cala ainda mais fundo no nosso ser, porque é no interior das nossas sociedades que está o mal que fazemos ao mundo; não podemos transferir o nosso medo mais profundo para o Outro das sociedades que nos pretensamente antagónicas. Esta falha primordial já não pode ser encontrada no capitalismo ou no socialismo, mas no próprio materialismo ocidental, na sua ontologia. O que enfrentamos não só é desmesuradamente mais potente como nos parece exprimir uma espécie de “revolta ontológica” contra a presença da espécie humana na Terra. É claro que esta “revolta” da Natureza não é contra o humano per se, mas expressa um conjunto de reações resultantes do efeito da “mancha humana” sob o comando do capitalismo ecocida que teve o início da sua marcha exterminadora na revolução industrial. Uma espécie difusa de culpa pesa sobre as almas ocidentais, mesmo as mais modestas e “inocentes”; a culpa pela catástrofe implicada no vínculo (de índole teleológica) entre o seu modo de vida burguês, o progresso civilizacional e a extinção da “raça humana”. Não é só a morte considerada individualmente que tememos; nem sequer apenas a morte dos nossos herdeiros; é esse abismo da “extinção ontológica” do humano da face da Terra e dos registos da história do cosmos. E bem sabemos que enquanto não soubermos viver de outro modo, com os nossos monstruosos Estados e o nosso omnipresente Capital, que o temor da extinção estará para sempre presente até ao dia em que de facto da espécie humana não sobrar um único exemplar.

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