A virtude política das ideias radicais
A atração pelas teorias políticas mais radicais e subversivas não se explica, como o pretendem os conservadores, por um qualquer gosto perverso pela violência, ou por uma ressonância de estrutura religiosa, ou por pura imaturidade e privilégio cívico, ou por fazer parte dos “vencidos” do sistema… Nada disso, se sou um radical apaixonado por ideias radicais -- o que não faz destas teorias conspirativas e, muito menos, fascistas – é porque estou convicto que a sua virtude está no modo como estas ideias são capazes de apreender o mundo como um todo para lhe denunciar a contingência onde o pensamento dominante diz só haver necessidade histórica; de colocar em marcha a possibilidade da alternativa radical, ontológica, onde a doxa dominante assegura não haver alternativa. As ideias radicais transportam-nos para as margens da sociedade, da política, da história e da economia. E as margens são vitais ao pensamento e às práticas radicais porque elas ensinam-nos que o universal de que o pensamento dominante depende é sempre na verdade um universal-particular, uma construção histórica que se faz da sedimentação da desigualdade, da exclusão e da assimetria de poder – de todos os poderes. A radicalidade coloca-nos assim na vertigem da história, no limiar da possibilidade, para nos ensinar que não estamos condenados a uma realidade que é apenas uma realidade entre todas as realidades concebíveis, imagináveis e possíveis. Com as teorias radicais podemos não só nos inebriarmos com o desejo de liberdade – que é sempre liberdade individual e coletiva, e é sempre, também, vontade de libertação – como aprendermos aquela que é a sua lição mais elementar: de que toda a história até aqui não é a história da necessidade histórica; de que as coisas podiam ter evoluído de uma forma radicalmente diferente da forma de como de facto evoluíram; principalmente, que não estamos nunca condenados à sobredeterminação da sociedade, que podemos sempre ter uma sociedade diferente.

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