Acordou numa cidade que já não reconhecia. Mas o cenário não era nem distópico nem utópico. Foi tomar a bica às Lages e quem o atendeu foi uma simpática e bolachuda menina brasileira. Hum, como lhe atiçava o pau aquela pele trigueira, porventura nordestina, os apelativos olhos castanhos amêndoa e os lábios carnudos! Precisou de ir comprar umas calças e quando foi a pagá-las qual não foi o seu espanto por a moça, ainda que com um recorte que mais se assemelhava a um exemplar provindo das gélidas terras nórdicas, cabelo loiro e sardas, acabara por se atraiçoar por seu irrefutável sotaque brasileiro. A sua estupefação foi total quando encaminhando-se para a sua pequena secretária ladeada por uma vastidão de pequenas secretárias que davam para outras tantas exíguas secretárias num labirinto infindável reparou que todos os seus colegas de call-center falavam a língua de vera cruz, que eram todos brasileiros. Isso não o intimidou, pelo contrário, depressa reparou como era gente simpática e solícita e que gostava de se ajudar mutuamente, e isso agradava-lhe sobremaneira a ponto de começar a odiar os portugueses, aqueles que eram os seus compatriotas. Os portugueses conseguiam ser mesmo mesquinhos; gente traiçoeira; um povo destituído de alegria; uma cambada de invejosos; uma nação sem graça nem talento; etc., etc. Questionava-se sobre o destino dos trabalhadores portugueses. Se eram agora esses energéticos e sorridentes brasileiros e as indomáveis e carnais brasileiras que ocupavam os postos de trabalho mais duros, vexatórios e miseráveis o que era feito dos trabalhadores portugueses? Seriam todos médicos, enfermeiros, professores, banqueiros ou corretores da bolsa? Mistério sem resposta. Teriam todos sumido, evaporado na vida clandestina e envergonhada dos beneficiários da segurança social, talvez emigrado em massa ou, cenário tanto mais promissor, a crise demográfica ter irremediavelmente comprometido a sobrevivência e continuidade da “raça portuguesa”. Tanto melhor. Portugal, um bom país para se ser esquecido. Tanto melhor. Robert nunca se sentira tão vivo e entusiasmado. As moças brasileiras intensificavam-lhe a líbido como se lhe tocassem o clitóris. Os preconceitos sobre as mulheres brasileiras como natural e culturalmente promíscuas e despudoradas mesclavam-se com as igualmente preconceituosas representação das mulheres indígenas sempre seminuas as quais, lascivas, entretinham uma boa parte dos seus dias no apaziguamento de um desejo que lhes seria ininterrupto, sórdido e selvagem.  Os exemplares masculinos, por seu turno, não pareciam preocupar muito a Robert, que julgava que se estes não se portassem bem naquele que ainda tratava por “seu país” seriam imediatamente repatriados ao ritmo de bastonadas dos serviços de estrangeiros e fronteiras. Devidamente domesticados, ocupando o trabalho sujo que já nenhum português queria fazer, com as suas mulheres propensas à satisfação dos infatigáveis e inconfessáveis desejos sexuais que os portugueses não podiam solicitar às portuguesas – especialmente quando estas fossem suas esposas! – pelo caráter mais moralista e inibido destas, Robert perdia-se nos sonhos dos bons dias que ora se auguravam enquanto a espécie portuguesa irresistivelmente caminhava para a sua autoextinção. A história completava um semicírculo. Os portugueses voltavam a colonizar o povo brasileiro desta feita no seu próprio território, poupando em viagens TAP e escorbuto. Com a vantagem que agora esse povo voluntariamente se subjugava aos feios, rudes e malfalantes abjetos, insidiosos, desdentados e rasteiros senhores de Portugal. Nunca se tinha visto a ordem secular dos ricos e dos pobres, dos senhores e dos escravos, dos esclarecidos e dos ignorantes, neste estado: o mais pobre e ignorante dos povos entre os ricos da velha europa a mandar nos ainda mais pobres mas não mais ignorantes da jovem américa. A decadência estava do nosso lado e não o contrário.      

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