Amizade



Medley ficou muitíssimo perturbada quando Robert lhe contou que tinha morto uma pessoa. É certo que fora um acidente, ainda assim… No momento daquela tenebrosa confissão que deixou Medley quase sem respirar, de olhar estupefato e boca aberta, parece que o mundo inteiro se fechara em torno dos dois; de súbito ficou escuro e assustadoramente silencioso. Como podia continuar amiga e companheira de alguém que tinha morto uma outra pessoa? Abismou-a ainda mais profundamente o sinistro facto de Robert não ter exibido o mais leve indício de remorso perante uma vida ceifada numa condução bêbada e alucinada. Robert continuava a falar apenas de si e de si sem a mínima referência à humanidade da vítima e ao facto de abruptamente ter liquidado uma possibilidade de ser; de ser o único e derradeiro responsável da extinção violentamente negligente e leviana de um milagre feito carne. Como podia Robert não conseguir entender em toda a sua profundidade a irreversibilidade do seu ato? Medley percebeu imediatamente que a partir dali, daquele segredo que egoísta e irresponsavelmente Robert depositara nas suas mãos, a relação entre os dois estava irremediavelmente perdida. Ou, pelo menos, que passava a existir um antes e um depois daquela confidência. Como podia continuar a acordar tranquilamente ao lado daquele homem sem escrúpulos que matara uma pessoa e parecia não conseguir perceber a radicalidade do seu gesto, as suas consequências mais abismais? Como podia continuar a confiar naquele sujeito que, da noite para o dia, se tornara num absoluto estranho? Mas o que mais ainda a trucidava era a vertigem desse nó para a vida que a confissão de Robert atara. Agora sim estavam condenados um ao outro pelo elo do segredo; Robert conseguia ser ainda sacana a esse ponto; no fundo Robert tinha-se decidido, naquela noite, no quarto com Medley, a voltar a matar. Como pode um adulto ser tão naïve? Agora aos olhos de Medley os olhos castanhos de Robert se tinham apagado para todo o sempre; de súbito eram olhos impenetráveis, amorais e imprevisíveis. Mas mais do que nunca, apesar da lancinante contradição que Robert tinha lançado nas suas vidas como um relâmpago dividindo a árvore da vida em dois, não o podia abandonar, voltar-lhe as costas. Não agora que era noiva de alguém-que-matara-uma-pessoa. Não iria curar nada, pois nada havia a curar, nem no mundo que Robert abortara, nem na vida interior de Robert, na sua consciência. Agora a exigência ética que a amizade parecia requer tinha atingido o seu ápice, o limite da sua prova. Não era Robert que estava a prova nem era Robert que estava a ser julgado, era ela, ela a inocente Medley. Cabia-lhe estar à altura daquele definitivo desafio à fidelidade. Agora sim, teria de ser humilde e capaz de intimidade com o que de mais obscuro e tenebroso há na humanidade. Conseguiria Medley estar à altura da confissão de Robert que era no fundo a confissão da humanidade naquilo que lhe é mais sombrio e duvidoso? Era disso afinal do que se tratava, era esse o teste que os insondáveis acasos da vida lhe tinham, com a sua infinita ironia, colocado.

Comentários

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  2. nunca me esquece que o papa João Paulo II visitou na prisão o indivíduo que o tentou, num dia 13, assassinar...

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