As (falsas) sociedades da abundância
Nestas nossas sociedades da
desigualdade, onde não apenas somos todos desiguais/diferentes uns dos outros,
mas onde a desigualdade é o fundamento das mesmas constituindo a desigualdade o
seu motor; onde a antinomia Estado/sociedade civil é a fonte de uma
desigualdade daqui em diante insuperável (mesmo nos regimes socialistas); onde
a luta de classes determina o sentido das sociedades e a desigualdade é
ideologicamente elevada a fórmula antropológica do progresso por meio da
celebração do darwinismo social. Nestas nossas sociedades avançadas, sociedades
do “fim da história”, a abundância é capaz de gerar crises gravíssimas e a
escassez impera nas margens da mesma ameaçando, consoante os ciclos do capital,
engolir cada vez mais amplas camadas da classe trabalhadora. O flagrante oposto
dessas sociedades ditas primitivas que tantas expedições motivaram da parte de
hoje célebres etnógrafos onde a relativa escassez material das mesmas (à luz da
supérflua abundância dos ocidentais) confluía naturalmente para um estilo de
vida onde imperava a abundância, na medida em que a cada membro da tribo era
garantida a provisão de bens básicos essenciais à sua subsistência sem que isso
implicasse acumulação desmesurada de propriedade nas mãos de alguns, isto é, poder económico. As sociedades não são
inelutáveis.

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