Da luta de classes ao choque ontológico


 

O “milagre” ou a “solução” da democracia liberal foi o de internalizar o conflito institucionalizando-o, dotando-o de regras, equilibrando-o com preceitos universais plasmados no texto constitucional, dividindo o poder de forma organicamente viável, separando o executivo do legislativo e do judicial. As democracias do capital tal como as conhecemos são verdadeiramente democracias dos partidos. São estes partidos que corporizam as ideologias e respetivos mundos que a democracia permite de acordo com as suas balizas normativas, com as regras constitucionais. O espírito e a lei da competição partidária pelo poder resume-se essencialmente à não transgressão do ponto a partir do qual o partido, a máquina partidária, se confunde com o Estado; quando o partido se torna absoluto ou, na fórmula leninista, “partido único”. A divisão secular das forças políticas entre esquerda e direita procura esgotar todo o sentido do conflito social assim o confundindo com a própria vida democrática. Mas nem o regime parlamentar consegue escamotear – e, principalmente, representar -- a luta de classes, a divisão estrutural entre burguesia e proletariado; nem a divisão entre esquerda e direita, ou todo o espectro da representação ideológica, consegue apagar o conflito mais primitivo entre sociedades desigualitárias e sociedades igualitárias. Esquerda e direita, ainda que antagonistas, não deixam de ser dois elementos (hegelianamente falando) da mesma dialética das sociedades com Estado (fórmula de Pierre Clastres). Quer dizer, o sucesso histórico das democracias liberais reside essencialmente na forma como esconde o real conflito político e social através do conflito entre a esquerda e a direita com todas as suas nuances. Mas mais radical e profundo do que o conflito entre esquerda e direita, e mesmo que entre operários e capital, é o conflito ontológico entre sociedades da desigualdade e sociedades da igualdade; sociedades da servidão e sociedades da liberdade. Mesmo a representação da história como história da luta de classes, ainda que verdadeira do ponto de vista materialista, não deixa de participar da ontologia das sociedades desigualitárias, das sociedades com Estado. E para saltarmos para fora da história como história da luta de classes teremos igualmente de dar o salto político das sociedades da desigualdade para as sociedades da igualdade. É simplesmente aporético procurar no materialismo dialético a resolução da contradição imanente à história do Estado e do Capital sem dar a volta à mesma a partir de dentro, sem a rutura política – não meramente económica -- com a metafísica da sociedade desigualitária.       

Comentários

  1. estou com aquele dito atribuído a Churchill: a democracia é o pior dos regimes, à excepção de todos os outros. «É simplesmente aporético procurar no materialismo dialético a resolução da contradição imanente à história do Estado e do Capital sem dar a volta à mesma a partir de dentro, sem a rutura política – não meramente económica -- com a metafísica da sociedade desigualitária.» isto já tinha sido antevisto, no tempo de Marx, por um Bakunin e, no tempo de Lenine, por um Machajski.

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