De que alimentas o intervalo entre os dentes,

Da inelutável erosão dos dias,

Da decadência a que emprestas a tua carne

Deixando-a à mercê da ferocidade do vidro?

 

Ou então dessa raiva cada vez mais incontida,

Cada vez menos apta a ser controlada,

E que abala os alicerces dos caninos?

 

Quantas palavras de revolta e desordem

Permitiste que ficassem presas às mandíbulas,

Pelo medo, pela falta de amor-próprio,

Tantas que ameaçam agora rebentar

Com os diques no lugar onde estão os dentes. 

 

Tal é a dimensão do ressentimento e da frustração

Que o corpo parece na iminência de implodir,

Qual bomba-relógio como uma força centrífuga

Expelindo pus, disseminando vertiginosamente as estrias,

Desdobrando-se em patologias,

Explodindo em grotescos abcessos e inchando grotescamente

Os dedos dos pés.

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