Deambulações filosóficas

 


Rancière recupera um pequeno artigo de um jornal operário (penso que do século XIX) que narra a estória de dois trabalhadores que estando a laborar na construção de uma casa para uns proprietários burgueses se desviam do seu ofício para se perderem em considerações sobre o que fariam se aquela casa lhes pertencesse. Esse gesto de nos distrairmos, de nos deixarmos levar pela imaginação, acontece-nos também quando estando no emprego, ou em alguma situação menos agradável, e desejando regressar a casa, fazemos mentalmente essa viagem, antecipamos o trajeto que desejamos percorrer até regressarmos à segurança e conforto do nosso lar. De alguma maneira a nossa ansiedade inscreve a rotina no que nela há de mais naturalizado, irrefletido e circular. Mas há outras formas de viajar, formas disruptivas, que recusando repetir caminhos antes se fazem do desejo incessante de trilhar novas estradas. Que não têm destinos marcados, nem casa de partida, nem nostalgia ou saudade e em que cada novo marco da sua existência é definido pela novidade absoluta, pelo espanto – tal como ocorre nas velhas deambulações filosóficas. Uma odisseia sem regresso a Ítaca, sem sequer conceber o retorno aos braços de Penélope. Uma viagem radical, à boa maneira dos nómadas que no fundo nunca deixámos de ser, apesar de aparentemente dependermos da nossa quotidianidade para nos sentirmos acolhidos no mundo.          

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