“Em busca do tempo perdido”



Não era bem uma “busca do tempo perdido”; não pretendia ajustar contas com o passado. Começara a fascinar-se pelas suas memórias e quando deu conta estava aprisionado no labirinto do passado. Não sabia responder se voltar a essas imagens era procurar conhecer-se ou revoltar-se contra o tempo decorrido; o tempo que sempre decorria. A vida, qual curso de água, parece correr incessantemente e nós, passageiros, não temos como impedir o seu processo; somos como troncos, lodo ou algas que o rio empurra sem cessar. Habitar nesse tesouro a que chamava o vasto palácio da memória (ou era o Santo Agostinho que assim o apelidava!?) era ajustar contas não com o passado, mas com o presente, com o irrefreável “anjo da história”. Em cada uma dessas lembranças, dessas projeções, sabia que era ele próprio a ocupar o centro de cada um dos cenários, mas, ao mesmo tempo, sabia que já não era ele, que ele era também um outro. Mas era preciso reconciliar-se com esse outro que era ele mesmo e ciclicamente encetar a compreender-se. Cada uma dessas cenas incandescentes obcecavam-no ao ponto de desejar ficar para sempre preso em qualquer uma delas, refém da lembrança. Talvez tudo se resumisse a nostalgia ou fosse mais do que isso; apesar de tudo o que tinha passado pertencer ao passado aí residir era sempre melhor do que enfrentar o futuro e a sua absoluta indefinição. Depois olhava para o campo da memória, fugaz e fulgurante como pequenas ignições ex-nihilo, e, qual menino perdido, procurava aí as chaves que finalmente tudo aclarassem. Mas o que havia para aclarar? As memórias eram lugares tépidos como o colo da mãe, talvez por isso nelas gostasse tanto de se demorar; a infância apaziguava-lhe o espírito e os remorsos. E elas iam e vinham como espectros atormentando o seu pensamento, provocando-o com as suas charadas num autêntico coro de sereias. E era verdadeiramente o seu eu que ali figurava, no elo entre aquilo que tinha vivido e aquilo que hoje era. Talvez o que o deixava irrequieto no passado, no seu passado muito concreto e imersivo, tão cheio de si e trágico e insuperável, era o desejo profundo de começar de novo; de tomar uma outra decisão, de voltar ao passado para refazer a sua vida toda; sim, era isso o que o obcecava na memória, a possibilidade de penetrar tão profundamente nalgumas dessas cenas para as fazer reviver, e, revivendo-as, alterar o curso da história, da sua história. É claro que todas essas tentativas apenas o deixavam ainda mais destruído e paranoico. E entretanto os anos sempre passavam.

Comentários

  1. quando sou atormentado, à luz do presente, por memórias embaraçosas do passado, rezo um ato de contrição - entregar as nossas falhas à misericórdia divina -, um pai-nosso e uma avé-maria e o sentimento passa-me. considero haver um toque demoníaco no surgimento dessas memórias embaraçosas.

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