Eu sou um outro
Enquanto a juventude se aparta de mim
lembro-me de ter tomado por insígnia o ímpeto rimbaudiano de ser um outro, “car je est un autre” (“porque eu é um
outro”). “Il faut être absolument modérne”
(“é preciso ser absolutamente moderno”). Vivi então uma parte significativa da
minha juventude, entre a adolescência tardia e os primeiros anos da idade
adulta, fascinado pela possibilidade de me transfigurar, de ser um outro, e convencido de que de facto
era possível ao humano em geral mudar de personalidade da noite para o dia. Se o
eu é um outro, se ele é sempre, consoante a fórmula marxista, um indivíduo-social, então o eu não passa
de uma máscara, de uma persona, de um
invólucro vazio, de uma superfície plástica, que é sempre possível transmutar pelo
efeito exclusivo da vontade do indivíduo – uma vontade férrea, por certo, mas
uma vontade. O Outro é real, tem substância, o Eu é uma ficção, uma
possibilidade. Entretanto cresci e perdi essa ilusão, não sendo talvez por
acaso que a desilusão coincida com a consolidação da idade adulta, somadas às
suas rotinas e ao desalento que toma conta da espessura do nosso tempo, ainda
que isso não me deixe propriamente satisfeito pela minha maturidade quanto melancólico
e até frustrado. Momentos há e momentos houve em que precisava de ter força
suficiente para acreditar que mudar de feitio, de carácter, de ser um outro,
acordar num mesmo corpo mas noutra alma, renascer a cada dia, era tão possível
quanto mudar de camisa – ainda que, enfim, essa mudança não fosse tão fácil
como a muda da camisa… Na verdade continuo a achar que é possível mudarmos por
nós próprios, mas não por um qualquer simples engenho do espírito, um artifício, antes
sim pelo sereno e laborioso cultivar do caráter que procura harmonizar a
necessidade de adaptação ao contexto (povoado pelos outros) àquilo que
desejamos que defina a nossa personalidade, que seja como que o nosso espelho
moral. E a vantagem da idade adulta é a sua dilatação temporal, a qual substitui
a intrepidez e impaciência próprias da mocidade pela construção do Eu enquanto
sujeito moral, enquanto Eu entre outros.

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