Interpelações profanas



Quantas serão as vezes que teremos de matar Deus para ficarmos satisfeitos com a condição do silêncio absoluto, com a inospitalidade radical? Conseguir-nos-emos afinal habituar a esta derrocada de todas as referências do transcendente – mesmo se um transcendente mistificado. Parafraseando Camus: a única questão religiosa realmente importante é se conseguimos viver sem deuses? E os deuses conseguirão resistir sem nós, depois da extinção da espécie humana? A que estarão estes destinados quando os seus animais de companhia preferidos se forem também consumidos no inferno do capitalismo? Pretenderão mesmo salvar-nos? E nós, quereremos mesmo que o além da compreensão humana se rebaixe para nos salvar, que tenha compaixão de nós? A que deveríamos afinal essa honra? É que se a enésima ensaiada morte de Deus abre para as sociedades humanas um problema do qual ainda hoje continuamos a sentir as réplicas (apesar de todo o nosso pretensiosismo ateu), a morte do humano como espécie nada representa para Deus, é um pseudoproblema. Sem deuses já provámos que somos capazes de fazer a nossa vida -- mesmo se à custa de termos transformado o dinheiro (e a cobiça) no nosso deus e no nosso supremo valor --, mas e os deuses sem os homens, o que será de todos os seus infinitos atributos? E é também por isso que, no limite, com ou sem deuses, contamos apenas connosco e respondemos apenas perante o tribunal da sobrevivência da nossa espécie. 

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