JMJ ou a celebração estatal do ethos católico

O ambiente vivido com a vinda do Papa Francisco a propósito da JMJ torna por estes dias indistinguível a vida do Estado da vida da religião católica. Não se trata apenas do derradeiro esforço nacional ao nível do governo central e das autarquias para tornar o evento um sucesso. Nem meramente da ampla cobertura mediática do mesmo em que a televisão e rádio pública portuguesa orgulhosamente se apresenta como o transmissor oficial das jornadas como se nesta oportunidade residisse a sua missão enquanto comunicação social. O que se celebra enfaticamente recusa a equidistância entre um Estado suposto laico, um aparelho de comunicação suposto de informar, e um acontecimento associado a uma igreja entre outras – e que assim deveria ser enquadrado. Pelo contrário, o que se celebra é o amplo consenso em torno da ética e da política católica tal qual esta se nos apresenta por este dias para lá de todas as suas contradições e tensões – como aquele episódio da zaragata entre católicos mais conservadores e católicos defensores da comunidade lgbt. Se é tonto afirmarmos que vivemos no simulacro de uma teocracia, o mesmo não se pode dizer da comemoração das jornadas como a representação nacional – forjada e ampliada pelos poderes do Estado e pelos meios de comunicação social – daquele que é o modo de vida que este grande consenso promove e acaricia. Multidões etnicamente diferenciadas a festejarem o cosmopolitismo não tanto da razão como dos valores pretensamente universais e que em nada maculam os interesses dominantes e a hegemonia do capital. Mesmo se o atual Papa traz uma mensagem, marcada pela razoabilidade, contra o capitalismo desenfreado e a ditadura do dinheiro. O Papa não é mais do que a expressão da (má) consciência burguesa num mundo que para transcender o neoliberalismo depende mais do antagonismo e da revolta do que da ilusão numa conciliação de classes assente no valores abstratos da paz e da solidariedade. Que os políticos, os jornalistas e os comerciantes do sistema, isto é, que representam os amplos “aparelhos ideológicos do Estado”, se regozijem com a disciplina e a movimentação pacífica e ordenada dos peregrinos que enchem as ruas da capital e procurem fazer desta um exemplo de ocupação do espaço e do tempo público é algo que só por isso nos deveria levar a suspeitar no grande consenso criado à volta das jornadas e que une desde os partidos da extrema-direita e da direita até ao PCP. A celebração das jornadas pelos poderes e instituições seculares dominantes é a celebração de um modelo de sociedade civil, com o seu ethos caraterístico, idealmente adequado à vida da nação e, principalmente, politicamente inócuo mesmo se moralmente desafiante.




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