Levava uma vida francamente idiota e uma vida dupla. De dia, operário, de noite, poeta, romancista, filósofo, sonhador, criador de mundos. Era difícil retornar a casa depois de mais um turno e não pensar com desânimo que levava uma vida de merda. Trabalhava na fábrica, subordinava-se aos metálicos caprichos das máquinas em que operava, produzia ininterruptamente sem saber nada de nada sobre o destino do fruto do seu labor, para que servia afinal tudo aquilo, todas aquelas horas desperdiçadas e o cansaço avolumando-se ao ritmo da desumanização; que insanidade poderia alguma vez justificar aquele ritmo frenético, e, principalmente, pagarem-lhe por isso quando podiam pagar-lhe por trabalhos que realmente enaltecessem os seus talentos, a sua beleza singular, e não fossem tão estupidificantes como aqueles por onde passava enquanto ativo membro do precariado. O capitalismo destrói-nos -- chegava solitariamente à conclusão. Talvez os seus colegas, operários, camaradas, pensassem o mesmo, calhava apenas que ninguém o dissesse, toda a gente subentendia que o seu destino era aquele e pouco havia a acrescentar. Não sendo, claro, a luta permanente por melhores salários e essa fuga ao trabalho que se dava, antes de tudo, no próprio local de trabalho. No ritmo que permanentemente se procurava sabotar ainda que em tal residisse o inconfessado da “ética do trabalho”. Todos a lutar para que o trabalho não acabasse por nos matar. De resto, eram fins-de-semana igualmente idiotas a beber cerveja até cair da cadeira, a passear nos grandes centros comerciais, a perder fé e implorar pela salvação, a comer nos sórdidos estabelecimentos em que toda a gente comia, a comer a mulher, a comer o marido, e, em havendo ainda ânimo e força para tal, engendrar uma ou outra zaragata em que finalmente toda aquela raiva podia ser, ao menos residualmente, liberta. Enfim, uma vida sem brilho, uma vida de massa, a que todas as formas de distração concebíveis nunca chegavam para mitigar.    

Os operários eram aqueles que se levantavam às cinco, pegavam às seis e desapareciam às duas deixando às suas costas todo um inominável lastro de mercadorias. Sabia-se que eles andavam pelas fábricas do mundo a ocupar os seus postos de trabalho, a circular pelas grandes avenidas, a encher as filas dos supermercados, a proferir grosserias nas esplanadas, de resto, ocupavam o lugar destinado aos figurantes quando se trata de filmar a quotidianidade de fundo, a sua vida nua, nas metrópoles.  

Se naquele dia perguntassem a Robert o que estava a fazer no mundo ele quedaria embaraçado e coberto de vergonha e miséria.

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