Nem sempre nos queremos aborrecer nem parecer asquerosos e vis, enfim, velhacos, mas há tanta estupidez no mundo que por vezes é mesmo preciso intervir; dizer que as coisas não se passam bem assim, que aquilo que o nosso interlocutor está a dizer nem é propriamente novidade nem é propriamente genial. O pior é que cada uma destas tentativas para frear a contaminação da estupidez resultava sempre infrutífera. A estupidez está de tal modo entranhada no modo de ser e de estar dos humanos que estes já não sabem viver sem ela. E então às vezes, pensava Robert, o melhor mesmo era deixar a estupidez fluir à vontade; dar livre curso à estupidez no mundo em tudo o que esta contém de excêntrico e de inacreditável. Mas, noutras vezes, a estupidez era tamanha, era de tal forma exagerada e abundante, que se não fosse travada corria o risco de colocar em causa a sobrevivência da sociedade, quando não da própria espécie. Mas recusava-se a vestir o fato do iluminado que assume por missão devolver alguma luz à infinda noite da estupidez humana; quer dizer, tinha-se cansado de envergar esse fato, a estupidez humana acaba sempre por vencer. E repare-se como a grande maioria dos nossos passos são dados sem refletirmos por um segundo que seja nestes, e quando por fim damos conta, se dermos, reparamos que passámos a vida inteira mergulhados num lamaçal de obscuridade e absurdidade. Como nós, ocidentais, burgueses, conseguimos ser ridículos! O tempo que Robert passou a procurar argumentar contra a proliferação da estupidez; dos conceitos obscuros; do misticismo intelectual; das formas mais embrutecedoras de relativismo epistemológico e moral… Tudo em vão. Quantas vezes se arreliou, perdeu as estribeiras, pôs-se a trocar comentários com desconhecidos que acreditavam nas mais pueris e néscias patranhas; outras tantas em que procurava levar o seu adversário ao limite de modo a que este não mais desejasse conviver consigo, que o desamigasse. Francamente, gostava de humilhar intelectualmente aqueles que lhe pareciam intelectualmente inferiores mesmo, ou especialmente, quando davam ares de superioridade intelectual. Estes sim, era preciso esmagar, humilhar, deixá-los tão absolutamente de rastos ao ponto de nos passarem a odiar. E também por isso Robert estava sozinho. Quer dizer, agora tinha Medley. Medley não era estupida, mas também não era propriamente um luminoso naco de carne branca. Às vezes a estupidez é tal que somos como impulsionados, por espécie de rebate ético, a dar um murro na mesa. Outras vezes só queremos mesmo pelejar, arranjar problemas, meter as pessoas maldispostas, pôr a nu as mais infames e delirantes mistificações. Com Medley era sempre diferente. Ela estava sempre disposta a aprender e nunca achava que tinha a última palavra – nem sequer a primeiro. E isso era um sinal de fineza e elegância intelectual que desarmava derradeiramente toda a arrogância e pedantismo de Robert. A ela Robert não conseguia ofender. Pelo contrário, Medley raramente tomava a iniciativa de uma discussão que saísse da esfera do quotidiano, dos assuntos do dia-a-dia, mas quando se prestava a fazer um comentário às por vezes tão longas e enfadonhas diatribes de Robert consigo mesmo este acabava por sair do seu monólogo ofendido por sua própria soberba. Um mero reparo sobre uma aparentemente insignificante falha em todo o seu edifício teórico e tudo desabava. Como podia ser tão estúpido, como lhe podia faltar tanto mundo, como podia confundir o seu umbigo com a lucidez.
Um poço de frivolidade
Medley era de uma superficialidade atroz, um poço de frivolidade. Dessas que não leem e vivem encantadas, para não dizer inebriadas, isto é, iludidas, pela vida falsa das celebridades. Passado todo o fascínio sexual não podia ter sobrado muito mais do que a autocensura por um dia se ter deixado apaixonar por aquela miúda. O coração até pode ter razões que a razão desconhece mas há limites, ou devia haver, para tanta estupidez. Nada o unia a Medley, nenhuma perspetiva de futuro, sonho com crianças e matrimónio civil, para que o desejo de Robert pudesse ser algo mais do que desejo sexual e, até, predatório. Tudo se resumia à questão de uma conquista que falhara; como, aliás, em tanto na sua vida. Restava a autocomiseração resultante de já não ser um jovem, nem, quanto mais, ter o mundo a seus pés. E se ao menos pudesse destacar-se pelo dinheiro que possuía ou pelo carro que exibia… Se ao menos pudesse, como se diz na linguagem juvenil dos nossos dias, ser um “sugar daddy”. A verd...
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