Nós, os respigadores


 

Ando em círculos, se escrevo não é porque tenha alguma coisa relevante a comunicar aos meus semelhantes, aos que partilham da gramática humana, ou, pelo menos, alguma coisa suficientemente digna e original para se inscrever nas tábuas da escrita. Há uma certa vaidade e um certo prazer estético, só isso, de resto as mesmas ideias de sempre, os mesmos dogmas, os mesmos preconceitos, que como que me rodeiam e voltam sempre a assaltar as veredas da minha criação sem criatividade. Se eu pudesse ao menos ter um rasgo, uma ideia suficientemente fulgurante da qual pudesse dizer: “isto é meu, isto não é propriedade de mais ninguém, isto sim, o mundo ainda não tinha visto nascer…”. Mas não, parece-me que estou condenado a escrever o mesmo de sempre por outras palavras, às vezes pelas mesmíssimas palavras; quem sabe se escrevo aos quarenta aquilo que já escrevia aos vinte… Mesmo as ideias que tomei por minhas, que fiz questão de confundir na minha personalidade política e moral, além de não serem minhas nem sequer estão incrustadas ao meu corpo e ao meu espírito, são como fantasmas, como espectros, dos quais não me consigo livrar, talvez porque não tenha forças, talvez porque não seja o suficientemente brilhante para isso. E que forma de existência pode ser afinal esta, condenada a repetir-se até ao final dos seus dias, sem lhe ser permitida uma centelha de originalidade e, porque não, de revelação? Para nós, os reclusos da circularidade, o génio atormenta-nos, leva-nos ao reconhecimento doloroso de que não somos mais do que meros funcionários, ou respigadores, do imenso arquivo humano que para nós esgota tudo aquilo ao que o humano é possível fazer – escrever.    


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