O académico dividido



Ensinar é repetir-se. Podia voltar daqui a vinte anos às cadeiras que ocupei durante os meus anos de faculdade que lá estariam os mesmos professores – se entretanto não mortos, enlouquecidos ou aposentados – a ensinar a mesmíssima matéria com o mesmíssimo estilo, o mesmo tom de voz, as mesmas referências e toda a teatralização envolvente. O académico é aquele que incorpora duas instituições distintas ainda que íntimas entre si: a do professor e a do investigador. Enquanto professor o académico representa a continuidade pela ritualização do ato de, ano para ano letivo, se repetir nas matérias e respetivo leccionamento, nas suas fontes e na sua metodologia, enfim, na sua pedagogia; mas enquanto investigador o académico é impelido pela missão de proceder de maneira exatamente inversa à da sua carreira professoral, procurando ali a rutura onde aqui há continuidade, a originalidade sobre o autoplágio, a criatividade sobre a monotonia, a “destruição criadora” sobre a disciplina de fábrica. É difícil responder a qual destas personas que o académico tem de saber encarnar podemos associar, respetivamente, o Mr. Hyde e o Dr. Jekyll, o obscuro e o luminoso. Sendo que uma representa a instituição do ensino em todo o seu esplendor demencial, a lavagem dos cérebros pela estandardização da transmissão secular do saber, e a outra o desafio a essa mesma instituição conservadora pelo impulso da inovação; inovação que a grande maioria das vezes não transcende a autorreferencialidade academicista. Durante os anos de iniciação aos seus pupilos, a licenciatura, o professor é pouco mais do que um sofisticado papagaio com o seu método de ensino universal que vai adaptando às necessidades particulares de cada turma e aluno, e na exata medida em que os graus académicos aumentam as barreiras entre o professor e o investigador vão-se desfazendo até que idealmente, quando o aluno chega aos seminários de doutoramento, o professor é quase – ainda que esse quase faça toda a diferença – um investigador entre investigadores, ainda que primus inter pares. Nesta batalha que, tanto interior como exteriormente, atravessa o corpo e a alma do académico não podemos prever quem sairá vencedor, se é que é mesmo preciso que alguém vença, mas é fácil deduzirmos qual destas figuras em última instância garante o salário do mesmo. 

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