O anónimo heroico



O que é crescer senão ver os sonhos desvanecerem-se um após o outro? É claro que entretanto podemos encontrar novos sonhos e conquistá-los enquanto os chamamos de projetos ou até conseguirmos a proeza de alcançar o nosso ideal de vida, mas nem por isso a distância entre aquilo que idealizamos e a sua materialização na vida quotidiana se desfaz. Porque a vida não é a exceção, os dias fora do comum, a singularidade da alegria, essa compactação no espaço-tempo, a vida é o normal, a quotidianidade, a inscrição anónima e rotineira na comunidade dos comuns (perdoe-se o pleonasmo). Crescemos, estudamos, arranjamos um emprego, casamos, temos filhos, militamos num partido, numa instituição de voluntariado ou numa igreja… vocês sabem, por estas ou por mais sinuosas vias (por vezes completamente heterodoxas), a força do social acaba por tudo atrair e a vida fulgurante e mágica que imaginámos para nós acaba sempre por revelar-se como uma vida entre todas as possibilidades de vida – e faz todo o sentido que assim seja! O fervor revolucionário em muitos se extingue com a extinção da juventude ou com a conformação ao estado de coisas, esse cerrar dos dentes que de tão feroz quanto repetitivo acaba por moldar aos nossos maxilares. Na verdade, não há caminhos únicos a serem trilhados por cada um de nós, caminhos adequados à insofismável novidade que somos para nós mesmos e para os outros; os nossos caminhos cruzam-se, sobrepõem-se, por vezes colidem e tornam-se em vias de sentido único, por vezes estradas sem saída, mas são sempre caminhos entre caminhos que andam à volta do mesmo espaço comum e do mesmo sentido e urgência de busca. Há mais heroicidade na vida quotidiana dos anónimos do que em todos os contos de fadas ou nos insustentáveis acasos que na tômbola da existência acabaram por proporcionar a uns e não a outros o brilho incandescente da glória, até o desempenho de um “papel na nossa história”, o registo do nome nos anais da civilização. 

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