O homem religioso ou os (in)sondáveis caminhos da fé
É frequente os ateus zombarem da fé
dos crentes. Creem que o homem religioso
é um anacronismo e um atestado de menoridade dos respetivos homens e mulheres
de fé. Ser religioso é para estes estar recuado no tempo e alienado. É claro
que qualquer um destes epítetos é passível de ser aplicado tanto no homem de fé
como no ateu, mas onde o religioso se separa do ateu é não apenas no
reconhecimento que o primeiro faz da precariedade da sua condição existencial (abismo
até onde o ateu o segue), mas, daí decorrendo, a prece por um ser transcendente
na qual deposita a sua confiança no mundo;
o reconhecimento do “milagre da transcendência” que como que encerra o
igual “mistério da imanência”, do mundano. Ao contrário do que pensa o ateu a
condição do homem religioso não é a condição do humilhado, daquele que
sacrifica o seu intelecto e a sua vontade em prol de uma mistificação; o homem
religioso é o sujeito que pelo ato de fé transita do reconhecimento doloroso da
sua fragilidade insuperável, da sua finitude, para o reconhecimento de que essa
falha ontológica apela à crença na
transcendência: que é, enfim, pela fé no Outro que o transcende que a sua
condição de vivente se completa. O ateu é “apenas” o cristão que não deu
ainda o passo seguinte à sua humilhação; que a procura escamotear com a ostentação do orgulho, mesmo se consciente que o humano, mesmo o humano socialmente
organizado, nunca é nem nunca será autossuficiente.

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