O milagre da comunicação


A comunicação política deve alcançar a proeza de ser universal e simultaneamente particular; falar para todos e para cada um em particular; fornecer uma verdade universal e tocar no coração de cada um dos seus ouvintes; ser uma linguagem de muitos e uma linguagem de poucos; ser exotérica mas também esotérica; literal e metafórica; clara e hermética; inequívoca e ambígua; enfim, ter o engenho de se rarefazer consoante os auditórios e apresentar múltiplos níveis de significado. Ser palavra de ordem, instituição, mas também interpretação e reinterpretação contínua. A palavra do representante do poder na Terra – seja este vertido na hierarquia do Estado ou da igreja -- tem de reproduzir, através de toda a sua teatralização, o ato de separação do falante em relação à sociedade. Este falante não é “como um de nós”. Não; ele fala a partir de uma instância que a um tempo nele se incorpora e, a outro tempo, o limita a ser a voz de uma realidade institucional que o ultrapassa, que o subsume. Ele representa o poder simultaneamente que o poder faz dele um mero instrumento: daí o seu papel representativo. Ele, este transmissor da palavra privilegiada, é como que o mediador entre o profano e o sagrado, entre a sociedade e o poder externo a ela. Palavra que este como mensageiro transporta, mesmo se palavra inteiramente banal, mesmo se palavra moralista e reprodutora do senso comum mais primário, como quem se sacrifica em prol de algo que o transcende, de que ele é o fiel mortal depositário. Mesmo nas nossas sociedades caraterizadas pela tagarelice ininterrupta e pelo ideal da esfera pública intrinsecamente democrática os “atos de fala” dividem verticalmente a sociedade entre quem fala por falar, a quem as suas palavras são destinadas ao vento ou à efemeridade e esquecimento, e quem faz refletir o seu poder através da sua fala, quem interrompe a tagarelice do mundo para nela fazer escutar a sua auctoritas. O poder da palavra nas nossas sociedades hierarquizadas é a palavra do poder que todos escutam como se fosse original, reveladora, ainda que a sua mensagem já tenha sido comunicada antes ainda de a termos escutado. Mesmo assim a sociedade como que depende da verbalização desta palavra por parte do poder, já que é nesta que assenta todo o seu ethos coletivo, coesão e sentido social. A sociedade faz-se e refaz-se continuamente através dos atos de fala de quem verdadeiramente a representa e simboliza.

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