O tempo das vítimas históricas


Vivemos o tempo das vítimas históricas. Dessas vítimas que não são apenas vítimas de um ato de violência circunscrito num espaço e num tempo concreto, vítimas que respeitam exclusivamente a elas mesmas e às suas circunstâncias, mas vítimas absolutas que transcendem a violência contextual de que foram vítimas. São vítimas de alcance universal portadoras do significante de toda a violência exercida sobre os seus corpos ao longo dos tempos. Séculos de história que consolidaram diversos tipos de opressão inscrevendo a desigualdade nos corpo das sociedades ocidentais fizeram emergir essa vítima histórica que carrega o fardo de toda a violência depositada sobre todos e todas os que partilham da mesma condição. É assim que o negro, a mulher, o homossexual, o proletário… não são apenas vítimas do racismo, do machismo, da homofobia, da exploração… que infligem sobre os seus corpos e espíritos, mas vítimas de toda a história do racismo, do machismo, da homofobia e da exploração praticadas até aqui, ao ponto de se confundir com a definição da polis ocidental. Cada negro, cada mulher, cada homossexual, cada pobre ferido na sua dignidade é simultaneamente a representação de toda a violência exercida sobre estas categorias (identidades!?) ao longo de toda a história da consolidação das sociedades de modelo e devir ocidental. Cada negro, cada mulher, cada homossexual, cada proletário atacado por sua condição social traz à tona todo o negro, toda a mulher, todo o homossexual, todo o proletário que o devir político e económico do Ocidente transformou numa categoria a abater. Um negro como negro, uma mulher como mulher, um homossexual como homossexual, um proletário como proletário, falam sempre a partir da violência consolidada contra uma multidão; representam sempre esse jogo entre o sujeito particular (o negro…) e o sujeito universal (o Negro…). Uma das grandes fraturas do nosso tempo assenta precisamente nessa aporia histórica que faz das vítimas históricas vítimas absolutas, de que não há maneira de recompensar, de curar, não sendo, no limite, pela extinção, pelo colapso, da própria razão de ser e de estar das sociedades da desigualdade. E é por isso que o problema do racismo, do machismo, da homofobia, da exploração… não é um problema meramente jurídico, legal, mesmo se elevado à forma constitucional, mas um problema antes de tudo político e que só pela política torna o seu horizonte superável. 

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