Sobre o modo de como os sonhos se desfazem
A meritocracia é uma forma de nos auto-explorarmos e uma forma de legitimação da desigualdade. A função ideológica da meritocracia é o de levar alguém a aceitar o seu insucesso social baseando-o na sua falta de mérito, na sua falta de esforço e talento; ou, no sentido inverso, a justificar o seu sucesso por um valor que é, no limite, imensurável: o mérito pessoal. A sociedade não está orientada para a realização dos nossos desejos nem para perseguirmos o nosso ideal de felicidade a partir do modo de vida que livremente escolhermos. A sociedade está politicamente organizada para a realização do capital e o que a comanda/determina não são os nossos projetos, os nossos desejos, os nossos sonhos e ambições, mas as leis e as forças do mercado. A chamada “crise das humanidades” tem um rosto muito concreto e ele dá pelo nome, não de neoliberalismo (ou essa espécie de capitalismo mau), mas simplesmente de capitalismo. Não podemos ser tudo o que queremos, nada mais ilusório do que a propalada ideologia do “segue os teus sonhos”; podemos ser, no máximo, tudo aquilo que o mercado nos permite ser. E o princípio do mercado é muito simples de formular: ou te adaptas ou morres. E o sucesso ou insucesso de cada modo de vida, de cada indivíduo na sua odisseia pessoal, é determinado pelo espírito de competitividade inerente à lógica de mercado. Nada mais falso do que a mitologia da filosofia liberal que nos procura convencer que cada um pode ser o que quiser – dentro dos limites éticos que balizam cada comunidade política -- bastando que se esforce o suficiente para isso. No estertor da social-democracia com os seus sistemas sociais salvaguardados pela intervenção do Estado o que nos resta é a fria indiferença que condena ao exílio social e à pobreza todos os que pretendem enveredar por estilos de vida e ocupações que não acrescentam valor (valor de troca) à economia.

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