Sobre o conceito de ateísmo
Em sentido estrito o ateísmo não nega nem afirma a existência de Deus; o ateísmo como que retira Deus da cena do mundo. Para o ateísmo todas as provas da existência de Deus (desde cosmológicas a ontológicas passando pela revelação e os milagres) são irrelevantes e, principalmente, intrinsecamente inválidas; o que se aplica também a quaisquer provas sobre a inexistência da divindade. O corte que o ateísmo realiza no mundo em relação à religião é o da destituição da transcendência; desse viver sem “a hipótese de Deus”. E tal como a religião o ateísmo é capaz do pior e do melhor, do belo e do feio, do medíocre e do sublime. O ateísmo pode deixar cair a humanidade no vazio existencial do niilismo implicado na célebre fórmula de Dostoievski do “tudo é permitido!”; como fornecer o suporte epistemológico incontornável para a realização terrena da humanidade num mundo sem salvação e transcendência. O ateísmo tanto pode abrir caminho para o desespero como para a alegria. Para as “paixões tristes” e para as “paixões alegres”. A alegria de ser-num-mundo de que somos uma sua ínfima e tantas vezes insignificante parte nessa jornada que nos ultrapassa incomensuravelmente e na qual, para o bem e para o mal, participamos, estamos embarcados. O mundo dos ateus é o mundo da imanência, da natureza como natura naturans e natura naturata; o mundo em que contamos apenas connosco, com a nossa situação e a espessura do nosso tempo. é o mundo da morte, da sua possibilidade mais certa, mas é principalmente a religião dos vivos, dos que acreditam que tudo se joga nesse instante em que existimos, perseveramos no ser.

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