Sobre o conceito de universalismo: uma ambiguidade fundamental
O universalismo está sob suspeita e
até em crise, e, talvez por isso, seja ponderada a realização de um diagnóstico
político da crise do universalismo. Mas, antes de mais, talvez seja positivo
termos presente que os conceitos políticos são conceitos atravessados pela
polissemia e em disputa permanente. Os conceitos políticos não dizem respeito a
essências nem os seus referentes são estáveis e objetivos. Dependendo dos fins
políticos em causa e do respaldo ideológico o universalismo pode ser algo
positivo ou algo negativo. Para uma filosofia política da emancipação o
universalismo é nefasto quando confunde o todo como uma das suas partes,
fazendo passar por interesse universal aquilo que é do interesse particular, de
uma classe particular que disputa a hegemonia política sobre o social (o
universal). Mais ainda, o universalismo é uma ideologia ao serviço da dominação
quando visa fundar as sua “leis” num campo a-histórico; quando confunde o
culturalmente contingente e aberto à disputa com o socialmente necessário e
fechado à contenda. Neste caso o universalismo serve não para incluir mas para
excluir, para determinar a fronteira entre quem está dentro e quem está fora,
quem participa do universal e quem precisa da este ser iniciado. O
universalismo é assim elevado a critério de afirmação de formas de vida e
culturas superiores e formas de vida e culturas inferiores. Por isso o
universalismo tem uma função essencialmente ideológica, de disputa do mundo em
torno da cultura. Por outro lado, nas nossas sociedades atuais o universalismo
está como que em crise, ou, pelo menos, sob tensão, o que tem também
consequências que nos fazem pensar na necessidade de reabilitação do universal como
“estrutura” básica da constituição da subjetivação política e de comunicação
com os outros em sociedades massificadas. Num tempo caraterizado pelos
fenómenos de “bolha”, da atomização social, da fragmentação não apenas do tempo
de trabalho como do tempo de lazer, das formas exacerbadas de “identitarismo”,
da celebração do hedonismo individual pela sociedade de consumo…, o universalismo
aparece não como uma patologia a que cabe os oprimidos reagir, mas uma tática e
uma estratégia política para chegar àqueles que são os nossos terceiros, para transformar
uma questão política particular, situada num determinado espaço-tempo, num
fenómeno universal capaz de mobilizar “o povo” ou “a classe”. Este universalismo
como capacidade política de convocar “as massas”, os anónimos e invisíveis, a
participar da disputa da história é um momento político incontornável e
antagónico a esse outro universalismo das classes dominantes.

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