Um elogio ao anarquismo
Aprendemos a separar a política do
social, apesar de nós, os pobres, os oprimidos, os explorados, sermos as
primeiras vítimas dessa separação, da separação entre a política e a sociedade.
O “pecado original” reside neste ponto: a legitimação, irrefletida ou não, naturalizada ou não, da
separação entre os políticos como casta e a sociedade civil. Nas sociedades com
Estado (para usar uma fórmula do etnólogo Pierre Clastres) o negócio da
política passou a ser o negócio dos políticos e os negócios da sociedade os
negócios não-políticos, a economia propriamente dita. E, por isso mesmo,
retomar a questão política não como questão exterior à sociedade mas como “essência”
vital da sociedade é um desígnio igualitário e politicamente revolucionário. Dar
a ver a política onde os políticos afirmam não existir política, como na
realidade quotidiana das classes oprimidas e exploradas, é desmantelar esse
dispositivo histórico da representatividade
que aliena a política da sociedade. Reivindicar a existência política no devir
mesmo da sociedade e suas multidões anónimas é atacar as estruturas da
dominação na sua elementaridade. Não há opressão nem exploração, em suma,
desigualdade, quando não há separação do político em relação ao social. Fazer da
política uma questão do dia-a-dia não dos parlamentares, ou das instituições
republicanas, é subverter essa ordem multissecular que se confunde nas
sociedades de matriz ocidental. E é bem esse o espírito patente na narrativa
marxista sobre a “ditadura do proletariado” – isto apesar do conceito parecer
significar paradoxalmente a subordinação completa do elemento social ao elemento
político; sobre a apropriação dos meios de produção pelos proletários como
signo da verdadeira democracia; da necessidade de planificação da economia a
ser determinada pela sociedade dos produtores/trabalhadores, especificamente
através de métodos democráticos como os sovietes ou os conselhos de operários. Pois
que as questões de economia, de infraestrutura, são também questões intrinsecamente
políticas que foram subtraídas às classes exploradas pelas classes
exploradoras. Fazer a política retornar à vida comum é pois o programa por excelência
dos que não acreditam nas sociedades do Capital e do Estado, isto apesar ou
para além do caráter subordinante da estrutura (as relações de produção) em
relação à superestrutura (a esfera do
político, ainda que não da política).

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