A caça


Andava doido, não há melhor forma de descrever o estado de Robert. Quase que salivava; uma vontade de comer insaciável. Oh que volúpias, que lascivas volições da líbido. Só lhe apetecia encostar o sexo às esquinas das paredes e arestas das mesas, roçar o rabo faminto nessas superfícies. Fartou-se de andar às voltas a ganhar coragem para convidar o seu colega de trabalho a beber um copo com ele. Mas queria ser discreto, que ninguém percebesse que ia sair com o seu colega que tinha fama, e trejeito, de ser paneleiro. Caso contrário seria irremediavelmente contaminado por esse libelo; o rótulo cairia também sobre si. Então pediu-lhe confidencialidade ao que ele consentiu sem deixar de expressar leve estupefação. Robert queria levá-lo para longe de onde estavam, mas o seu objeto de desejo negou-se a tanto. Ficaram-se pela terrinha. Felizmente o bar não estava muito cheio e não havia muita gente sua conhecida. De resto, o que podia importar? Eram só dois colegas que ao fim de um dia de trabalho resolveram relaxar e confraternizar, certo!? O seu objetivo era embebedá-lo; por outro lado tinha de ser rápido, o seu tesão torturava-o a ponto de quase se ter atrevido a pousar, por baixo da mesa, a mão na perna; um minuto a mais naquele espaço de baixa luminosidade e ninguém poderia prever – a começar pelo próprio -- o que Robert era capaz de fazer. Felizmente não demorou muito até saírem do bar; o seu colega era um muito regrado bebedor, o que contrastava flagrantemente com os seus modos efeminados e até algo excêntricos. Robert convenceu-se que o engate seria muito mais fácil; que se tratava tão só da sua vontade indomável de se aliviar, que a vontade do seu futuro e efémero parceiro afinal não contava. O que é certo é que o seu colega se revelou mais pudico e razoável do que Robert podia conceber, principalmente naquele estado de embriaguez sexual. E bem que procurou dobrar a sua vontade no parque de estacionamento sem iluminação e vazio, por pouco não se ajoelhando em súplica. Disse-lhe que podia fazer tudo o que quisesse com ele e assim vice-versa; que era apenas aquela noite, que ambos iriam adorar, que seria, para os dois, uma noite memorável. E é claro que para Robert, a sê-lo, seria apenas isso, uma noite de deboche como uns parênteses entre a vulgaridade dos dias; uma espécie de calendário obscuro, secreto, nas dobras da rotina. Mas o seu colega negou-se terminante, mesmo quando Robert lhe afagou maliciosamente o sexo entalando-o entre o seu corpo robusto e a porta do carro para onde o colega se procurava, sem sucesso, esgueirar. Perante tamanha tampa Robert não podia fazer mais do que voltar para casa e procurar resolver a sua insaciabilidade na autossatisfação do desejo. Agora que via os seus planos se desmoronarem esperava que o seu colega não relatasse aos seus outros colegas a forma como Robert quase lhe implorou para que o comesse, ainda que hipocritamente lhe fingisse ter asco, pior ainda, lhe ter complacência e tolerância. Finalmente em casa do seu intenso ardor quase só restava uma pequena quase impercetível brasa que rapidamente extinguiu com duas ou três sacudidelas no órgão; lá fora a noite brilhava de clara e um silêncio de semana pairava sobre os dormentes. No dia seguinte tudo permaneceu igual. 

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