A dúvida


A dúvida dilacerava-o. Tinha colocado a fasquia demasiado alta e não conseguia garantir estar à altura do que havia planeado para si. Vivia numa espécie de tudo ou nada e talvez não houvesse forma mais radical, mais única, de viver. Ou resultava ou, de um momento para o outro, tudo desabava como um castelo de cartas. É certo que aquilo a que se propusera era colossal, inumano, mas não fosse assim e mais valia não se ter proposto a coisa nenhuma. A expetativa de fracassar gelava-o. E ainda por cima não tinha como garantir, de forma alguma, nem o fracasso nem a glória. Inclusive morreria sem saber se toda a sua obsessão tinha afinal vingado, deixado “escola” ou herdeiros. A possibilidade de fracasso retumbante avassalava-o. Mais ainda, o que o atormentava era não ter o talento, nem a obstinação, o desejo, a força de vontade, nem as competências necessárias para atingir os seus objetivos: não menos do que a imortalidade. Assim Robert passava os seus dias, os seus meses, os seus anos, torturado ocasional mas visceralmente pela possibilidade de não possuir o que era necessário para poder continuar a viver. O espetro da impotência arruinava-o. Lutava contra forças colossais, em qualquer dos casos sabia que estava condenado a perder. Então para quê o combate, todo sofrimento? Quando se media com outros humanos, ainda que absolutamente geniais, quase inacessíveis, adivinhava ainda uma chance, ainda que ténue, certo, mas uma chance; mas o que fazer contra o tempo, a instituição da história, o esquecimento? Caminhava numa rua sem saída e era preciso andar. Se ao menos uma voz inequívoca, um sinal, algo não muito épico mas não menos claro e sem ambiguidade. 

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