A engenheira
Não conseguia encaixar esse fascínio
coletivo pela ordem. É certo que as coisas lá no trabalho estavam um caos, mas
o sentido saudosismo pela velha mestra era para ele enigmático e também,
dado a sua propensão para as filosofias igualitárias e anárquicas, escandaloso.
Não seriam afinal capazes os homens, e também as mulheres, de proezas inigualáveis,
dignas de todo o esplendor da humanidade, quando organizados em coletivo? Dependeriam,
em primeira e última instância, de um chefe, no caso, de uma chefe? Dependeriam
da chefia, essa figura degenerativa dos eleitos, dos que fazem a ponte entre o
profano e o sagrado, como as tribos dependem vitalmente do seu totem? Toda a
equipa de trabalho esperava, qual Sebastião, o retorno improvável, quando não
impossível, da engenheira, a única à altura do colossal desafio de restaurar a
ordem perdida assim que se demitiu desaparecendo para sempre pelos portões da
fábrica. Como Robert era novo no trabalho não conhecera aquela que os colegas
mais antigos da seção tratavam simplesmente por a engenheira. Para ele, Robert, o que contavam acerca dessa pessoa
era da ordem do mitológico, de um tempo vindo de outro tempo. Mas o que o perturbava
mesmo naqueles apelos sinceros ao regresso da antiga chefe era o atestado de
menoridade que os seus colegas de trabalhavam passavam voluntariamente a si
mesmos – aproveitando, claro, para zombar da incompetência e fraqueza dos seus
novos chefes em relação à engenheira. O mundo caminhava inexoravelmente no
sentido do caos e do mal e nada era capaz de travar a queda não sendo a
engenheira que aparentemente nunca mais regressaria à fábrica. As lamentações
eram permanentes atravessando toda a hierarquia mas consternando especialmente os de baixo. E a sua dor, derivada dessa
falha ontológica, era insuperável; passariam anos, décadas, a lastimar a perda
do seu Salazar e a decadência que então se seguiu. Não era a unidade perdida
que então choravam, o fim do Éden, onde a harmonia entre os homens e entre
estes e a natureza estava orgânica e ciclicamente assegurada; o que os dilacerava
ao ponto de os amesquinhar era a falta de um ente humano superior que lhe
pudesse justificar, pela discricionariedade da ordem, a sua condição de seres
inferiores, de multidão da base da pirâmide. O que desejavam não era a
igualdade, mas uma justificação tão plausível quanto prática da desigualdade
que todos os dias os oprimia e explorava. Era esse o chão que sentiam fugir sob
os seus pés.

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