A louca dos gatos
Medley era também uma “doida dos gatos”. Alimentava-os, albergava-os, às dezenas, principalmente sofria por eles, tanto ou mais quanto sofria por Robert ou por ela mesma. Era daquelas fanáticas que tirariam o pão da boca para dar a um gato esfaimado sem pensar duas vezes. Robert não podia compreender tamanha devoção que mensalmente lhe delapidava a algibeira. Também havia cães e andorinhas que faziam ninho na primavera, mas estas não eram por Medley alimentadas, andavam à deriva, faziam o seu próprio caminho. Robert também gostava dos animais. E queria vê-los bem, e brincava sempre com eles e fazia-lhes festas. À sua maneira também os amava e os animais também gostavam muito dele pois os cães abanavam a cauda ao portão para o receber e os gatos ladeavam-no ajeitando-se de modo a obterem afagos ou nas suas pernas se esfregarem. Ronronavam também. Mas eram demasiados. E cagavam tudo lá em casa e mijavam nas esquinas das paredes, e a casa andava sempre empestada do fedor a dejetos e infestada de pelos. Não era higiénico, mas Medley não se ralava de todo. Procurava manter os compartimentos minimamente limpos mas como em tudo antes de tudo vinha o bem-estar dos animais. Bem-estar!? Quer dizer, o bem-estar possível, já que não havia dinheiro que chegasse para castrar todas as gatas que estavam por castrar e elas reproduziam-se sem cessar já que Medley se recusava também a pôr os gatos na rua – tudo isto por puro amor à animalidade; e os cuidados veterinários eram praticamente nulos e então os gatos e gatas passavam muitos meses a borrarem-se todos de diarreia ou com problemas respiratórios que se expressavam no arfar permanente e pela tosse. Algumas gatas mais velhas apresentavam túmidos caroços no abdómen que pareciam em risco de a qualquer momento rebentarem de pus e sangue. Nem sempre Robert se conseguia conter, as palavras que sistematicamente recalcava iam acumulando até explodirem de raiva e frustração. A sua luta para controlar Medley, para procurar impor-lhe alguma razoabilidade, fazê-la ver que a situação era mais do que insustentável e que colocava em causa o seu autodeclarado amor pelos animais, era tão diária quanto infrutífera. A colónia expandia-se continuamente, as crias multiplicavam-se indefinidamente, principiavam a invadir os espaços interiores da casa, a fazerem ninho na sala, a dormirem no quarto dos donos, a lamberem os restos de comida da pia da cozinha, a encherem a casa de banho de excrementos, a beberem da água do lavatório. Robert continuava a adorar os seus animais mas ao mesmo tempo desejava que eles fossem todos dizimados. Vivia obcecado por essa ideia ao mesmo tempo que lhes fazia festas no pescoço ou cócegas na barriga.

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