A sociedade e o seu culto do génio
Vivemos numa sociedade que valoriza o talento individual, presta culto ao génio e é obcecada pelo prestígio. Por esta ordem de razões se compreende que as classes mais eruditas se escandalizem com quem recuse sobrevalorizar o cânone, que o critique, o rebata e conteste; e as classes leigas tendam para a veneração dos ídolos muitas vezes validados pelas classes letradas. Assim se justificando também a banalização de epítetos como “génio” e de superlativos como “brilhante”. É claro que estes exemplos pretendem representar “tendências” e não casos individuais que lhes são honrosas exceções. À perda histórica da aura que Walter Benjamin viu ascender e vingar com a reprodução mecânica da cópia não se seguiu uma proporcional queda do culto do homem pelo homem, bem pelo contrário: mais do que nunca se disputam as fronteiras entre o original e o plágio, e o autor é elevado, protegido e consagrado como instituição. Por isso é tão difícil, por ser tantas vezes tomado por ofensa, como se a maculação do idolatrado representasse um ataque pessoal ao idólatra, quer ferir o consenso criado pelas classes cultas e que se materializa no cânone, quer desafiar o talento ou os talentos tornados consensuais - - por toda a ordem de razões como o fator mediático e a captação do “espírito da época - - entre as classes populares.
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