A solidão mais absoluta
Espera-nos no final da noite
E por agora só se vê o brilho letal
dos seus olhos
E a brasa incandescente do seu cigarro
Ao fundo no dobrar da esquina
Nesta sociedade de bárbaros que tanto
desprezam os seus velhos
Esses mortos-vivos de peles caídas,
doenças várias e aspeto grotesco
Que se arrastam pelas sombras da
cidade
Os nossos incómodos inquilinos invisíveis
E já podemos adivinhar entre a neblina
as silhuetas
Dos que entretanto inevitavelmente
partirão
Primeiro de todos os nossos pais
Depois os nossos colegas de trabalho,
os vizinhos,
Os melhores amigos
Os próprios filhos se os tivermos
Banquetes do primeiro dos deuses Cronos
que tudo devora
Até só restarmos nós connosco mesmo
Segurando talvez uma caveira
Ou entabulando longas e severas
discussões
Com os nossos fantasmas
Alimentando de larvas os remorsos
Perpetuamente obcecados com a nossa
galeria de arrependimentos
Com sorte teremos quem nos acompanhe
E faça par connosco
Nessa dança macabra
Que de maneira alguma pode ser interrompida
Até o salão ficar completamente
silencioso
E vazio
Uma janela subitamente aberta fruto de
uma rajada de vento mais forte
Não é sinal de esperança
Quem nos espera no fim da noite mais
tardia e absoluta
Ninguém.
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