"Amar pelos dois"

 


Penava para que ele a amasse. Fazia de tudo para lhe quebrar o coração de pedra. Por todos os meios procurava a sua atenção. Humilhava-se portanto. Mas Robert permanecia distante, indiferente, por vezes mesmo hostil e rude. Medley iludiu-se o tanto que pôde e soube até não mais conseguir fingir que ele não só não a amava como a desprezava. E padecia atormentada sobre as hipotéticas razões para esse desprezo. Pensava no que eventualmente lhe teria feito; mas nada do que pudesse ter feito que o tivesse ofendido teria sido tão grave e duradouro para explicar tamanha repulsa. A aversão de Robert era profunda, visceral, disseminava-se pelo sangue, entranhava-se nos ossos, martelava nos seus neurónios, perturbava-o. E se continuava com Medley era porque de algum modo se sentia condenado a ela beneficiando do secreto prazer de a amesquinhar e o privilégio de ser amado sem que ele a amasse. Gostava de a torturar emocionalmente; testar os limites de Medley, perceber até onde o seu amor tonto podia ir. E como quem ama é abnegado e imensuravelmente paciente! Robert, altivo, sempre de cabeça direita, num caminhar nobre e imponente, quase não lhe falava procurando reduzir as interações com a namorada a uma saudação e a um sim ou a um não; mesmo o sexo se tornara penoso, rígido e formal, quase kantiano. Medley sentia-lhe o nojo pelo seu corpo, evitando Robert a todo o custo tocar-lhe; reagindo sobressaltado ao seu mais inocente toque. Às vezes tornava-se insuportável tal era a sua frieza e crueldade. A superioridade moral dos que são amados e que não precisam de se rebaixar para obterem o mais desapaixonado afeto dos seus objetos de amor como os cães que baixam o dorso para poderem ser acariciados. Medley tinha passado o dia inteiro na cozinha a preparar um jantar que pretendia reconciliatório, especial, que pudesse servir de condimento para uma noite de paz e serenidade, mas ou Robert nem sequer aparecia para a refeição justificando-se com os amigos ou lamuriava-se do sal ou dos legumes que não estavam cozidos no ponto de que gostava. E Medley finalmente explodia. Atirava deliberadamente um copo à parede da sala; dizia, quase aos gritos, em fúria, que desta era de vez, que Robert era um traste, que ela não merecia o que passava com ele, que a sua condição era mais a de um bibelot ou de uma prisioneira do que de uma namorada. Mas a tempestade sempre amainava e no dia seguinte, como o amanhecer, lentamente tudo se restabelecia; a velha ordem era retomada.       


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