As democracias realmente existentes


A democracia liberal, a democracia realmente existente, é uma forma de legitimação do poder e do monopólio no uso da violência. Esta divisão do poder no seio da sociedade que se torna inadmissível para os democratas numa ditadura é tornada legítima na democracia liberal. É como se sufragássemos os nossos algozes. Não será então por acaso essa divisão entre a democracia na esfera pública (garantida, dentro de limites e contradições que são também os limites e contradições dos interesses da burguesia, pelo Estado de direito com a sua pluralidade de direitos civis) e a ditadura na esfera privada ou entre a democracia na esfera da superestrutura e a ditadura na esfera da produção. A democracia realmente existente não é um modo de vida inseparável de todas as dimensões da vida social (desde a esfera privada do lar até à economia), mas uma forma de regime que pretende legitimar uma divisão dita necessária através da instituição temporária do voto, de um sistema de freios e contrapesos (checks and balances) e da perversão da participação direta e imediata nos assuntos da cidade pelos mecanismos parlamentares de representatividade. A democracia liberal não forma cidadãos livres e iguais por si mas cidadãos mais livres e iguais do que outros de acordo com a sua capacidade de influenciar o poder ou ser poder. A democracia representativa, parlamentar, burguesa, não nos cura da desigualdade nem torna o poder e a violência mais legítimos; isto porque a democracia como forma de vida igualitária e livre só pode mover-se contra as instituições do poder e contra o monopólio da violência por parte das mesmas. Quando muito a democracia liberal é a forma ou a cena da contingência histórica do poder coletivo dos povos contra aqueles que temporariamente detêm o poder. As democracias burguesas não acabam com esta dramaturgia da luta contra o poder por parte dos oprimidos ou dos explorados, antes agudizando esta tensão. A verdadeira democracia (o poder do povo, a sua autodeterminação) como que pulsa e irrompe por detrás do simulacro de democracia a todo custo preservado pelos poderes liberais que se recusam a acabar com a divisão povo e Estado ou trabalhadores e Economia.      

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