Birras

 

Chateavam-se e Robert travava bruscamente o carro e saía porta fora. Era sempre assim. Como era sempre Robert quem conduzia era também sempre Medley que tinha de sair do lugar de passageiro para conduzir o carro até casa. E uns metros mais adiante da estrada a cena repetia-se. Medley fazia a sua voz de súplica e Robert enxotava-a com birra e determinação sonora, quase aos gritos e a bater os pés no alcatrão. Não vou, não vou, não vou. Até que Medley se cansava de implorar e arrancava a todo o gás irada pela casmurrice do namorado. No caminho para casa ficava a imaginar Robert a caminhar de noite na beira da estrada como um destemido viajante, um forasteiro; é claro que temia os perigos a que este estava sujeito e não conseguia ficar sossegada. Quando a distância a casa não era muita Robert fazia o caminho todo a pé; se a distância fosse mais significativa ou o cansaço maior procurava boleia esticando o polegar aos carros que por si passavam. E quando finalmente chegava a casa, por vezes chegando a demorar mais de uma hora, para além de trazer consigo a aragem gélida da noite trazia não mais a cólera, nem a resignação, mas a raiva entre os dentes, uma frustração que lhe devorava a carne. Curiosamente, Robert não era de se alongar nas birras, mas de as fazer repetidamente, fazia parte do seu estilo. O seu comportamento roçava o irracional, não havia lógica nos seus atos; quem sabe se fartasse da voz irritante e provocadora de Medley, dos seus juízos acutilantes e violência verbal e psicológica, ao ponto de a não conseguir mais suportar. Talvez por ser o filho que ficou à guarda da mãe até esta falecer tenha sido excessivamente mimado. Gostava de ser o centro das atenções; amava que o amassem ainda que fosse incapaz de pagar da mesma moeda. A única relação séria e duradoura que era capaz de ter era consigo mesmo. A tal ponto que nem se apercebeu como com o tempo se estava a tornar rabugento, velho e velhaco, mesmo insuportável; como definhava na sua amargura e desconfiança arreigadas.


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