Amor platónico

 



O que Medley parecia exigir de Robert a este era impossível de sustentar. Uma autêntica tortura afetiva. Não era um amor clandestino à imagem dos amantes que traem os seus respetivos cônjuges. Ou um amor clandestino de quem procura esquivar-se ao implacável juízo da sociedade que tudo faria, e tudo fará, para tornar inviável uma relação que crê infame tendo em conta os seus padrões de “normalidade”, o seu modelo de preservação dos bons costumes. Um amor homossexual ou um amor entre um professor e uma aluna. Ou, sei lá, um amor entre duas famílias rivais, como os capuletos e os montéquios. O que julgava Robert que Medley lhe pedia era uma espécie retorcida, em nada sofisticada, de amor platónico. Um amor que se sustentasse não naquilo que era, ou sequer naquilo que poderia vir a ser, mas naquilo que poderia ter sido. Um amor assim que vivesse do imaginário dos amantes mas sem se concretizar em absolutamente nada. Que cada um regressasse a casa e no caloroso silêncio dos seus respetivos quartos realizasse a sua vida amorosa amputada pensando no outro e no quão felizes poderiam ter sido se alguma vez tivessem a mínima possibilidade de serem alguma coisa um para o outro. Faltaria talvez atravessar essa fronteira invisível do tamanho quase muralha a partir da qual “tudo é permitido”. E esse rasgo dependia da ousadia e coragem dos dois – falta de coragem essa que Robert imputava principalmente a Medley. Não querer saber o que os outros pensam sobre um determinado relacionamento e saber arcar com as respetivas consequências, designadamente a ostracização, o exílio amoroso. Ter a coragem de enfrentar o asfixiante peso das determinações sociais – o seu sistema de códigos comportamentais e a sua moral – para viver de forma livre, mesmo, ou principalmente, se isso condenaria os amantes ao opróbrio e à censura social. O amor platónico apenas destruía Robert, matava-o lentamente. Viver com a possibilidade não lhe chegava, era como ter a terra à vista e recusar-se a atracar num movimento perpétuo de autocensura e de autopunição. Queria imaginar Medley feliz mas não conseguia.

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