Bolas de berlim
Voltava a descer a ladeira em calçada
portuguesa em direção à pastelaria. Era manhã de Domingo, talvez primavera ou
outono, e a mãe, gulosa e a desfalecer de fome, lembrava-se em boa hora de o
mandar ir buscar duas bolas de berlim. Como era pequeno e frágil e
simultaneamente de uma vivacidade capaz de revolver qualquer muro ou escolho! Robert
quase não se via com a testa à altura do balcão. Mas as empregadas já o
conheciam e saudavam-no com ternura. “São duas bolas de berlim, por favor!”,
dizia Robert com aquela voz de garoto. Trazia talvez uma camisola azul
ligeiramente desbotada, umas calças de ganga sujas nos joelhos, uns sapatos
achatados e rotos pelo uso. A pobreza entranhava-se na sua fisionomia esquálida
e escorria pelo nariz em derrame. Assoava-se com as mãos. As empregadas, com o
seu instinto maternal, perguntavam onde estava a mãe ao que Robert respondia
sem embaraço que estava em casa, a descansar, na cama. As funcionárias entreolhavam-se
num misto de perplexidade e resignação e lá lhe davam o troco advertindo-o para
que tomasse cuidado no caminho de volta a casa. Eram de facto outros tempos
onde as crianças mais pobres andavam sozinhas desde cedo pelas ruas, a fazer
recados às mães, a ir à mercearia fazer pequenas compras, todos os dias a ir e
vir da escola. E Robert foi uma dessas crianças. Quando chegou a casa, ou,
melhor, ao quarto com a cama que partilhava ainda com sua mãe, esta num só
movimento se ergueu sentando-se. Não há dúvidas que partilhavam de uma
felicidade intensa ao comer aquelas bolas, mais do que isso, de uma
cumplicidade sem par. Por vezes, quando a mãe tinha ainda algum dinheiro e a
gula ou a sofreguidão eram então maiores, mandava-o ir buscar mais duas bolas
enquanto lhe dirigia palavras de incentivo e de meiguice. E Robert, não se
importando nem um pouco, lá ia outra vez ladeira abaixo… Agora que já era
adulto de quando em vez, quando lhe apetecia, ao pequeno-almoço ou ao lanche,
comer qualquer coisa doce e estava perto da cidade onde crescera, lembrava-se
sempre da pastelaria da sua infância que felizmente não tinha ainda fechado e
conservava basicamente o mesmo espaço e respetiva disposição. Ao lado da
esplendorosa Medley que não podia compreender o seu fascínio por aquela
pastelaria em específico procurava no rosto dos funcionários mais velhos
ressonâncias; pequenos sinais de reconhecimento e de cumplicidade. E curiosamente
sempre lhe parecia que a estes Robert não lhes era estranho, apesar de ele já
não se lembrar dos rostos dos empregados da sua infância, e de por vezes
passarem mesmo anos sem lá pôr os pés. E sempre fazia questão de pedir uma ou
duas bolas de Berlim que, ao menos na sua cabeça e na sua memória intestinal, preservavam
o mesmo sabor inigualável da infância. Eram as melhores bolas da cidade, quem
sabe do país e até do mundo.

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