Do modo como nos tornamos insuportáveis



Gostava muito de Medley mas por vezes não a conseguia suportar. Medley era demasiado intensa para ele. Sugava-lhe toda a energia, secava-o. Com Medley por perto tudo girava à volta dela; e mesmo que estivesse longe! Incessantemente lhe mandava mensagens, não o largava, queria aprofundar os temas, levar ao limite qualquer conversa. Na verdade queria falar sobre si, ouvir como era brilhante, que a adulassem descaradamente, que lhe mentissem enfim. Chegava a ser exaustivo conviver com Medley, tanto que Robert frequentemente interrompia uma conversa a meio – que na verdade era mais um longo e enfadonho monólogo da sua namorada – para ir fumar um cigarro à varanda ou justificando-se com um compromisso inadiável, uma panela a arder na cozinha, uma necessidade fisiológica. Estava farto dela, do seu egocentrismo, da sua necessidade patológica de atenção e de validação, mas não conseguia romper com ela por esse motivo. Como podia confessar-lhe, depois de tantos anos, que simplesmente não suportava a sua voz, a sua presença, o seu corpo!? Como podia dizer-lhe que a razão para o seu cada vez mais acirrado desprezo se prendia com o modo de ser mais profundo de Medley? Então procurava fugir-lhe. E fingia não ler as mensagens que ela enviava quando Robert estava em viagem de trabalho. Procurava sempre entrar na cama ou quando Medley já tinha apagado o candeeiro ou quando ele mesmo o apagara na ausência de Medley enquanto fingia dormir morto pelo cansaço. Nem mesmo suportava a conversa de Medley, todo aquele pretensiosismo e perpétuo delírio, a forma como se repetia como se conduzisse em círculos todo o seu discurso; como pedia toda a atenção quando achava que tinha algo de importante a dizer, quando julgava que ia proferir alguma afirmação genial, absolutamente sem par, que necessitava da mais incondicional atenção por parte do seu auditório, isto é, de Robert; falava como se estivesse em transe ou em epifania, como se, antes de tudo, amasse ouvir-se. Parecia depender de Robert, da sua aprovação e do seu cuidado e carinho, como se a sua vida dependesse disso. E Robert pressentia como Medley reagiria se rompesse com ela, se lhe confessasse que a não suportava mais, que não havia nada a fazer pela situação porque as razões para a repulsa de Robert assentavam naquilo que Medley era na sua própria essência, naquilo que de mais profundo estava incrustado ao seu ser. Quem sabe se Medley não se mataria, cortando os pulsos no lavatório ou, fazendo jus ao seu gosto por gestos dramáticos, não se atiraria de um prédio quando tivesse reunido o público em volume que achasse suficiente para se atirar. E como Robert poderia viver o resto dos seus dias em paz como ex-amante daquela que se suicidara depois de ele ter rompido com ela? Estava condenado a Medley, a menos que ela subitamente se fartasse de si, o traísse ou imprevisivelmente morresse de causas naturais. Era com estes dados que teria de jogar.    

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