É difícil perceber se é literatura

Mas que é bonito lá isso…

É na verdade um canto inominável

Intraduzível em qualquer língua do mundo

E no entanto sabemos muito bem que é real

Que nos cola às entranhas como pastilha ao estômago

Que nos despedaça e nos confronta

O que é afinal percebermos aquilo que dizemos perceber

Quando as palavras principiam a perder a aderência

E então se tornam flutuantes

Indomesticáveis e vacilantes

Elas mesmas indecisas como a mão que escreve

Ou a voz que soletra

Estamos aqui como a poesia

No limiar da linguagem

Um pouco mais de insistência

Isto é de insanidade

E a fina parede rompe qual placenta

E é então que inomináveis e indescritíveis paisagens

Assomarão diante do nosso espanto

Que abismos e silêncios nessa finisterra

Que poemas inauditos, belos de doer, irrepresentáveis,

Figurarão no limite dos poemas

Vivemos no interior das palavras

Como as larvas no seu casulo

Quem sabe se um dia não possamos ser também

Borboletas.  

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