Em Delfos me ordenaste
Nessa voz simultaneamente doce e
assertiva de oráculo
Que eu me conhecesse a mim mesmo
Mas como posso eu conhecer-me a mim
mesmo
Quando não passo de um amontoado de
ficções
Das mentiras que incessantemente me
conto
E me contam sobre mim mesmo
Quando nada existe no meu interior
Não sendo uma multidão ordenada de
órgãos
Em suave e lenta decomposição
Um exército venoso em marcha
E carne latejante e nervos como cordas
que tangem
Num emaranhado de destroços em vasos
comunicantes.
É um quase nada que separa o meu corpo
do resto do mundo
Um limiar
E é ver como ele se confunde, se dilui
e se dissolve
Na seiva das plantas, na respiração
celular dos atros,
No ritmo melancólico das chuvas que
fecundam a terra
Exalando o fedor acre a sangue e sexo.
Pudesse eu por um instante que fosse
Ver-me por fora e por dentro
A partir de um ponto completamente
outro
Distante e frio
E talvez implodisse.
Condenados a este corpo e a esta selva
de todos os tormentos
A única certeza que nos é garantida
É que nos está vedada a possibilidade
de nos conhecermos
Sem com isso nos aniquilarmos.
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