Gente da cultura



Talvez não houvesse, no ecossistema da cidade, fauna que mais desprezasse do que as pessoas da cultura. Pessoas da cultura com os seus sacos ecológicos a tiracolo, o seu veganismo, com o seu olhar altivo, quase de nuvem, e o seu trotear calculadamente desengonçado. Os livros que atabalhoadamente sempre faziam questão de levar para a praia enquanto à sua volta todo os outros se divertiam a jogar à bola, a desafiar as ondas, a lambuzar os dedos com os cremes das bolas de berlim, estirados nas suas toalhas de praia até acordarem esturricados pelo sol como se assassem em lume brando. Homens da cultura com a sua fala afetada, os seus óculos, as suas poses extravagantes; com a sua mania de corrigir a fala dos outros e de zombarem dos modos burgessos e primatas da populaça; de não se misturarem ou, quando misturados, de fazerem questão de se distinguir, de procurarem a todo o custo brilhar no meio da mole, de desviar as atenções para si. Gente da cultura que enojava Robert ao ponto de evitar ser visto ao lado de tais pessoas. Gente culta e erudita, certamente, e geralmente de bons modos, mas que nem por isso era capaz de dispensar o privilégio do seu ócio, a sua recusa radical do trabalho duro que julgavam não os dignificar, talvez porque achassem mesmo que a cultura é mesmo o mais importante na vida e para a espécie humana... Depois aquelas mãozinhas brancas, lânguidas, longas, mãozinhas de piano que não podiam estragar manuseando pesados e rudes instrumentos de lavoura ou estragando-as com toda a espécie de detergentes. É claro que tinham empregados e criadas, e bajuladores e toda a espécie de lambe-cús. Tenhamos presente que as pessoas da cultura podem ser mesmo muito caprichosas; são animais delicados, espécies comuns mas raras. É evidente que dentro da tribo das pessoas da cultura havia muitas sensibilidades e tendências, muitas divisões e subdivisões, grupos e subgrupos que faziam questão de andarem sempre engalfinhados; na verdade, cada uma das pessoas da cultura gostava – ou gostaria – de se afirmar como uma sensibilidade e uma tendência por si mesma. Havia gente de cultura de esquerda e gente de cultura de direita. Gente de cultura abominável e gente de cultura acessível. Gente de cultura que ostentava orgulhosamente o seu ódio à plebe e gente de cultura que parecia só viver para salvar a plebe, quais madre teresas com os seus discursos marxistas e as suas ideologias progressistas, toda a sua retórica sobre a igualdade e sobre os direitos dos operários. Encanitava a Robert ao ponto de lhe causar prurido nas partes moles principalmente a alta noção que as pessoas de cultura faziam de si mesmas. Como se fossem elas as derradeiras guardiãs da civilização humana, os seus pilares. Pessoas da cultura que falam de uma maneira esquisita provocando deste modo o riso das outras pessoas; constituindo pretexto para assinaláveis piadas e mofa. A gente de cultura vivia tanto dentro dos seus salões, dos seus círculos, das suas trincheiras, das suas cabeças e daquilo a que chamavam de arte, que tantas vezes não percebiam o quanto eram desprezados por aqueles que fingiam não desprezar ou aqueles que faziam questão de desprezar. Como conseguiam ser patéticos com os seus maneirismos e as suas excentricidades! Com as suas crises de criatividade e o seu ar mortificado. A sociedade tolerava-os e isso era tudo; afinal cada comunidade tem o seu bobo da corte e o seu cortejo de anormais e perversos, faz parte. De resto, não fosse a gente da cultura ter habilmente, num trabalho paciente e minucioso ao longo de séculos, construído, em conluio com os políticos e outros homens poderosos, as suas campânulas, as suas instituições, e há muito tinham sido alvo da fúria desmesurada e irracional das gentes comuns. Em cada sociedade há sempre um homem da cultura que, de tempos a tempos, é preciso vexar publicamente arrastando o seu corpo exangue pelas avenidas principais da cidade para intenso regozijo dos pobres e dos néscios. 

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