Javier Marías e a arte como "forma de pensamento"
Javier Marías, reputado escritor espanhol, define a literatura como uma forma de pensamento. Vale a pena transcrever todo esse parágrafo:
“La
literatura es también una forma de pensamiento, y una de las principales, y no
creo que a eso pueda renunciar el mundo, sobre todo porque ese pensar literario
-en forma de narraciones o historias o de versos o de diálogos y monólogos- nos
viene acompañando desde hace demasiados siglos. Hay cosas que sabemos sólo
porque la literatura nos las ha mostrado, o nos ha permitido tomar conciencia
de ellas y reconocerlas. Hay saberes e intuiciones que no son expresables o no
se manifiestan en un lenguaje exclusivamente racional: ni técnico, ni
filosófico, ni económico, ni religioso, ni científico, ni desde luego político,
ni tan siquiera psicológico.”
Não podia estar mais de acordo. Aliás,
acrescentaria que toda a forma de arte é uma forma de pensamento; que toda a
arte é o resultado de uma atitude filosófica, de um colocar em movimento e obra
uma predisposição filosófica, uma forma de pensar. A obra de arte reflete não
apenas uma determinada conceção, tema ou forma filosófica que a antecede, que a
guia e ilumina, agindo a montante, como essa forma filosófica – ou de
pensamento – se reifica, se materializa, na obra. Quer dizer, toda a arte
expressa uma filosofia que motiva o artista à realização da mesma e a inscreve
na sua obra. E mesmo as formas de arte que se afirmam mobilizadas por processos
do inconsciente ou destituídas de inteligibilidade continuam a ser formas de
arte que se fazem contra a tutela da
filosofia ou do pensar na elaboração das obras; na verdade, também estas,
refletem uma determinada filosofia – mesmo que niilista – que se pretende
elevada a forma de arte.
Como escreve Javier Marías a
literatura é, por si mesma e não por acidente, uma forma de pensamento autónoma,
válida pelo seu modo de expressão e sua historicidade, em relação a outras
formas de pensamento como as mais diversas ciências, a filosofia ou a religião.
A condição para a obra de arte, para a atividade artística, tem subjacente a
filosofia; a condição da obra de arte é a condição da filosofia. Também por
isso a filosofia não pode ser hermeticamente isolada das outras esferas da ação
humana e seu pensar, pelo contrário, ela é contaminante, naturalmente evasiva,
promíscua, penetrante e difusa. Não se trata de submeter a criação artística a
uma determinada filosofia, a um determinado paradigma filosófico, mas de
perceber o quanto na realização da arte é o resultado de uma tensão filosófica
de que o artista não se livra, mesmo quando a sua arte se insurge contra toda a
filosofia ou toda a intencionalidade,
toda a teleologia. Por natureza e condição o artista é um pensador, um filósofo
em potência e em ato.

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